Um pássaro na mão e um negro a voar

mockingTo Kill a Mockingbird é um livro com um título quase perfeito. Nenhuma tradução – Por Favor não Matem a Cotovia, em Portugal, ou O Sol é Para Todos, no Brasil – consegue chegar lá perto. Acho que neste caso até vou preferir a escolha editorial brasileira, porque qualquer totó com um dicionário à mão perceberia que um mimus polyglottos não é, de todo e maneira alguma, um raio de uma cotovia.

Há alguma coisa neste romance do Sul que o coloca na mesma categoria de livros que são entregues, geração após geração, aos tenros benjamins da família, na esperança de que eles se instruam com gosto e moralidade e mais tarde revisitem o livro, munidos da maturidade necessária para perceberem que ele é único. To Kill a Mockingbird relata a infância de Jeremy e Jean Louise “Scout” Finch, duas crianças que atravessam a infância na pacata e fictícia cidade de Maycomb, em Alabama, durante a Grande Depressão. Para eles, a crise financeira está muito longe, e não lhes chegam senão os ecos indistintos da carne milionária nova-iorquina que no auge da desonra e humilhação perante as suas falcatruas se lançava lacrimosamente dos arranha-céus (como hoje já não sucede, apesar de haver muitos pedidos e especulação bolsista nesse sentido). E assim, a vida sulista prossegue suavemente, sem grandes perturbações, até que um negro, Tom Robbinson, é subitamente acusado de violar uma rapariga. Atticus Finch, o pai solteiro das duas crianças, é nomeado pelo tribunal para defender um homem que a cidade inteira considera já culpado e que, obedecendo às leis formidáveis de alguns Estados da América, sucumbirá na cadeira eléctrica.

Devo prevenir-vos, caríssimos, que há um enorme perigo em confiar um livro tão bom como este aos olhos inocentes de uma criancinha. Não me refiro à abordagem adulta do tema da discriminação racial. Não pretendo invocar a crítica às instituições educativas e familiares. Tão pouco me insurjo contra o tratamento de um assunto tão sério como é crime de violação, ou com o emprego de expressões e retratos hoje considerados racistas.

Não, o verdadeiro e monstruoso perigo aqui é Atticus Finch.

Dêem um livro destes a uma criança e elas quererão tornar-se advogados quando crescerem. Parece-me claro que não podemos deixar que isso suceda. É que Atticus Finch é fortíssimo. Ninguém é como ele. Mas deveríamos ser, e como Harper Lee é uma escritora admiravelmente cândida, sabemos que a personagem tem raízes num qualquer espécimen concreto da nossa espécie e que não é apenas uma imaginação cor-de-rosa destinada a colorir as salas de tribunais com moralismos insuperáveis ou acareações serenas. Atticus Finch possivelmente até chegou a existir (e não, não foi o Gregory Peck). Pergunto-vos: deveremos permitir que as crianças do nosso futuro, vindouros políticos, comerciantes, arquitectos ou jornalistas, encontrem um exemplo tão lapidar durante os seus anos mais impressionáveis? Nunca, eu digo, nunca! Tremo de pensar no que teria sucedido se um destes nocivos exemplares tivesse sido depositado nas minhas mãos quando eu era mais jovem! Que destino atroz! Com o livro devorado, teria então encetado estudos de Direito, finalizado um diploma reluzente, buscado lugar num escritório de excelência, procurando em tudo ser como Atticus, o grande! Arrepio-me de imaginar tão triste fado.

Harper Lee, essa grande corruptora das mentes imberbes, procurará convencer-vos através da sua prosa, exibindo o seu magnífico dom de contadora de histórias. Cada parágrafo encadeando-se sem mácula no trecho que se lhe segue, ela encantará o leitor, baixando as suas defesas, aliciando-o com as imagens vernais de uma infância que já foi de todos, para depois, sem tugido de misericórdia, arremessar-vos essa temível arma engravatada chamada Atticus, o papá inteligente e culto que não hesita por um segundo quando os filhos lhe perguntam o que significa “violar alguém”, “o que é a coragem”, ou até “porque motivo ele defende o negro” quando sabe que vai perder. Eu pergunto: deverá um pai demonstrar tanta candura? As suas respostas, tamanha eloquência? A sua postura, semelhante serenidade?

A perfídia de Lee não conhece limites. Vejam bem como ela urdiu aqui um jardim de caminhos circulares, semeando lições embrionárias nos capítulos iniciais, deixando-as adquirirem força e legitimidade com o decorrer da história. Abundam os símbolos narrativos, a simplicidade do discurso, a visão inocente da narradora, a rectidão moral de Atticus. E o homem está em todo lado, mesmo quando se encontra ausente. As suas ressoantes lições ecoam por todo o romance: basta levantar o céspede, e lá está ele.

Ao menos o livro não aborda a pergunta que vai na boca de todo o mundo: como pode um advogado defender um causa que sabe estar errada? Ou porquê oferecer garantias constitucionais a assassinos? Porquê soltar prisioneiros depois de uma reforma no processo penal? Como não admitir provas reveladoras que tenham sido ilegalmente obtidas? Indagações deste género ouvem-se quotidianamente, e sempre que isso acontece há relações amorosas com advogados que terminam em discórdia, gatinhos fulminados pela ira divina, e mais flores murchas do que aquelas que há no jardim. Pois bem, a causa de Atticus não é errada; Tom Robbinson encontra-se inocente, independentemente da vitória ou derrota na litigância concreta. O oposto sim, teria sido digno de se ver! Atticus Finch, que por convicção no due process defenderia um convicto e declarado violador de hillybillies solitárias. Como explicar isso a uma criança ou, o que é infinitamente mais difícil, como justificá-lo perante o público adulto que não esteja iniciado nas artes político-jurídicas?

Mas se alguma vez pudesse existir uma figura – real ou fictícia – capaz de responder a essa questão, estou seguro que seria o bom Atticus Finch, a improvável, a credível, a incomparável, a inspiradora criação de Harper Lee.

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2 thoughts on “Um pássaro na mão e um negro a voar

  1. […] ‘Um pássaro na mão e um negro a voar’ […]

  2. […] do activismo racial durante a era das leis Jim Crow. É uma leitura interessante para quem está familiarizado com a história de To Kill a Mocking Bird, mas assenta num ponto de partida um tanto falacioso: o de segurar Atticus Finch contra o […]

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