More, I prithee more.

A popularidade de As You Like It (Como lhe Aprouver) tende a exceder a importância que a estimada academia literária lhe confere. Ao longo dos séculos, nunca esta peça soube obter uma resposta unânime do variado auditório que busca em Shakespeare um refinamento humano superior. Para os apreciadores de comédias, todavia, sempre foi uma obra predilecta dentro de um reportório que alberga um bom número de peças cómicas.

Ainda assim, a crítica erudita gosta de pisotear As You Like It. É tradição, uma espécie de iniciação à clique. Não que as suas observações usuais estejam desprovidas de sentido: trata-se efectivamente de uma peça ligeira, de que a edificação moral e estilística das insígnias shakespearianas se encontra ausente, e que afinal não passa de um conjunto de variações de uma comédia de erros. Há quem entenda que William Shakespeare (se o de Stratford ou Edward de Vere, isso agora pouco interessa) cedeu ao populismo e ofertou a turba elizabetiana com uma comédia propositadamente fácil. Pedestrian, quite, quite, e tudo o mais com um golinho de chá. Outros vêem no próprio título e no epílogo enigmático um convite à avaliação subjectiva do trabalho (e também uma incitação honesta ao abandono do milenar hábito de emitir observações sobre tudo e de as aspergirmos pelas praças em busca de reputação ou credibilidade – a este propósito, há uma excelente citação de Santayana que estive tentado a reproduzir aqui sem lhe dar crédito, mas vou deixar esse tipo de manobras indecentes para outras calendas).

Não é fácil avaliar nada como nos aprouver. Ontem como hoje, o estudioso de literatura é um animal sequioso de opiniões alheias que possa moldar a seu bel-prazer [quantas versões de as you like it conseguirei reproduzir em português?]. Além disso, o movimento de resposta crítica a As You Like It tem igualmente conduzido a interpretações da peça particularmente sisudas e pré-formatadas para a aceitação crítica pela malta highbrow das revistas e jornais. Por exemplo, é com inegável qualidade e tédio que a RSC tem encenado produções em Stratford com a sobriedade académica digna do Bardo, não esquecendo o deprimente cânone antigo de um elenco exclusivamente masculino. Tendo isso em boa conta, já sabia que talvez não fosse muito adequado ir espectar para o Globe em busca de uma interpretação definitiva de qualquer uma das suas peças, quanto menos de uma peça que supostamente requer um esforço de solenidade adicional para contrabalançar os seus excessos de vulgaridade.

Mas lá fui. E se há coisa que nunca me deixa de surpreender, é como eu nunca deixo de ser um palerma completo, um energúmeno arrogante, cabeçudo imodesto, um feioso preconceituoso. A produção de Thea Sharrock no Shakespeare’s Globe para este Verão é óptima. É mais que óptima, é ideal, e transformou-se no paradigma contra o qual compararei as futuras encenações de que for testemunha.

Como sou uma pessoa de observações perigosamente hiperbólicas, talvez seja aconselhável explicar esta afirmação. É que eu sempre achei o núcleo de As You Like It inembelezável, e que a dinâmica entre Orlando e Ganymede não consegue elevar-se acima da diversão cómica do género em que foi concebido: a comédia de erros radicada no mito de Anfitrião. Está demasiado balizada, é tudo. No entanto, os papéis secundários permitem adornar e possivelmente até reconfigurar a peça, autorizando um certo grau de reinvenção. Ao oferecer-nos uns estupendos Touchstone e Jaques, a produção do Globe resolve o problema das suas personagens mais problemáticas da peça.

São problemáticas, sim senhor. Orlando, por exemplo, é de um carácter muito acessível, e o papel de Ganymede ou Celia é normalíssimo e pode ser interpretado de olhos fechados (obviamente…). Quase todos os figurões do elenco não reclamam um trabalho preparatório mais intenso do que o sempre exigente processo de familiarização com as peculiaridades do teatro shakespeariano. Mas Touchstone tem de declamar piadas e trocadilhos do século XVI na vaga esperança que o auditório se ria. Jaques tem de interpretar um bêbedo melancólico e evitar ser rotulado de fanfarrão inebriado.

É claro que Touchstone pode apresentar-se como um mero bobo, e Jaques apenas um bêbedo. As audiências rir-se-ão abundantemente, porque palhaçada é coisa que não obviamente escasseia nesta peça. Como é que o outro dizia? Dai-lhes um número com um cão e ficarão contentes (aqui, uma cabra – literalmente). Ora, é precisamente isso que uma pessoa séria tende a detestar em As You Like It: a sua tendência para abandalhar e facilitar, de nos fazer sentir mais um membro da turba que se ri rudemente. Daí a importância de um Touchstone que reflicta no seu discurso a sardónica consciência das suas próprias falhas, ou de um Jaques que, de permeio com toda a sua fanfarronice florestal, assuma um porte suficientemente solene para que, empinando subitamente a sua peitaça e ajeitando a farta cabeleira descuidada, declame o célebre Seven Ages of Man munido de um olhar enevoado e uma voz judiciosamente tremeluzente:

All the world’s a stage,
And all the men and women merely players,
They have their exits and entrances,
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse’s arms.
Then, the whining schoolboy with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress’ eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths, and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden, and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon’s mouth. And then the justice
In fair round belly, with good capon lin’d,
With eyes severe, and beard of formal cut,
Full of wise saws, and modern instances,
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper’d pantaloon,
With spectacles on nose, and pouch on side,
His youthful hose well sav’d, a world too wide,
For his shrunk shank, and his big manly voice,
Turning again towards childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

Ora isto, vindo de um homem que algumas cenas atrás uivava melosamente…

I can suck melancholy out of a song, as a weasel sucks eggs.

… tem de ser cuidadosamente enquadrado. Jaques precisa de roçar o impossível, representando uma alma perdida, capaz de interpretar a beleza da tristeza, condenando-se simultaneamente a uma existência de parcas ambições. Mas também deve preservar a altivez de um nobre pensador fatalista, e sacar essa acutilante faceta nos momentos pertinentes.

Com Tim McMullan – o actor que interpreta Jaques –  nunca a melancolia soube tão bem. Ele articula as suas deixas com uma soberba gravidade, mergulhando-as num estupor melancólico praticamente inebriado. A sua interpretação é contagiante, açambarcadora, o género de declamação que quase não chega ao final de cada frase, como se cada uma fosse um monumento enternecedor e irresistível de melancolia e ele se encontrasse demasiado extasiado ou aturdido para a conseguir completar. A sua voz, grave e musical, paira pelo anfiteatro, preenche todos os recantos livres, entrelaça-se e esfrega-se lascivamente nas colunas. Caramba, a sério que apetece trepar ao palco, estreitar aquele homem num abraço e depois passar o resto da tarde a cantar cava e melancolicamente – em torno de uma fogueirinha e uma vinhaça – histórias sobre amores perdidos que nunca foram ganhos, tempos passados que nunca foram os nossos, e desgostos indizíveis que nunca chegaremos a sofrer.

Touchstone não tem uma tarefa mais fácil. Para além do dialecto arcaico com que tenta arrebanhar o nosso divertimento, tem uma horrível provação pela frente: resistir à comédia física e estabelecer um elo com a audiência. Na maior parte das interpretações, o prazer que derivamos das suas piadas é hoje intelectual: o riso só nos atinge o palato depois do cérebro processar os trocadilhos e metáforas. Que agradável, portanto, ver um actor como Dominic Rowan inverter a tendência, milagrosamente recuperando toda a visceralidade da esgrima verbal.

Representando o saco-de-pancada de tudo e de todos na peça, é exigível de Touchstone que seja um verdadeiro bobo, um bobo mais inteligente que as tolices com que os outros se divertem, superior e aéreo sem se mostrar arrogante. Por outras palavras, Touchstone é um trapezista esquizofrénico que oscila perigosamente – na bamboleante linha das invectivas e ripostas – entre a perspicácia da sua sátira e a arrogância da sua atitude. Ora, Dominic Rowan não vacila uma única vez, e pelo caminho ainda consegue dotar a personagem de uma aguda consciência auto-observadora, apresentando nos recantos do seu rosto um constante mas diminuto esgar de incómodo sempre que desfere uma piada que invariavelmente também se lhe aplica com implacável fragor. O mundo é um palco, seguramente, quando nem sequer os seus mais literais actores escapam às venenosas invectivas dos seus variegados papéis. *

Não se pense que os restantes papéis se encontram ignobilmente representados.  Por exemplo, Jack Laskey é um Orlando competente (se bem que demasiado cabeludo), e Naomi Frederick é certamente entusiástica enquanto Rosalind, apresentando um sub-tipo de beleza e fisionomia britânicas bastante ajustadas à sua contribuição na peça. Laura Rogers é uma querida enquanto Celia e desembaraça-se com elegância. De facto, se compararmos este elenco com o de Romeu e Julieta que de momento se encontra em cena no mesmo teatro – e entre o qual se conta um Romeu irrequieto, género UBS Guy da Mad TV, uma Julieta que acabou de entrar na puberdade e decidiu ir passar umas férias a Verona, e um pai que nem pestaneja quando metade do palco, incluindo o seu filho, se encontra esfaqueado, espancado, envenenado, ensaguentado, empalado, ou morto por acção de qualquer outro instrumento – os protagonistas de As You Like It levam a palma com distinção e honrarias. O resultado? Uma tarde bem passada, uma redenção parcial da turgidez em que as representações desta comédia frequentemente incorrem, e a descoberta de dois actores formidáveis que urge não perder de vista. E só custa 5 libras (acrescidas de trezentas libras pelo bilhete de avião, despesas de transporte e apólice de seguro contra malas perdidas no Terminal 5 de Deathrow).

* Não resisto a relatar um episódio que sucedeu numa destas representações. Durante o  Acto III, Cena III, um pombo decidiu ir ao teatro e pousou na orla do estrado (a democratização da cultura pelo reino animal é um apanágio secular de um teatro ao ar livre). Sentindo que ali se representava Shakespeare, o pássaro ficou cheio de medo e decidiu partir, precisamente no momento em que Touchstone declamava “and as pigeons bill, so wedlock would be nibbling”. Por isto, Dominic Rowan recebeu aplausos inusitados, incluindo por quem pensou que ele acabara de improvisar a deixa. Sem quebrar a personagem, e como no fundo As You Like It é uma peça dentro de outra peça, Rowan empertigou-se com um sorriso irónico e um par de sobrancelhas que troçavam dos espectadores, barafustando prontamente “It’s in the script!“.
Com as etiquetas , , , , ,

One thought on “More, I prithee more.

  1. […] ‘More, I prithee more’ […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: