É triste viver neste mundo, meus senhores!

kmirgorodMírgorod é uma cidade, mas na prosa de Nikolai Gógol é também um conceito intermédio entre os idílios de Poltava e a corrupção de São Petersburgo, integrando uma categoria de espaço intersticial numa viagem ideográfica de pensamentos e arte. O livro Mírgorod é a segunda grande obra de Gógol, integrando-se no seu período folclórico ucraniano, e foi concebido como a continuação natural do muito divertido Noites na Granja ao Pé de Dikanka. Não é surpreendente que, tal como esse primeiro livro, albergue um conjunto de contos que decorrem nas estepes e vales simpáticos da bela e amistosa Ucrânia, em toda a sua extravagância e exuberância.

Se quisermos associar a transição Dikanka / Mírgorod ao percurso pessoal de Gógol (que, recordemos, viajou, viveu e escreveu algumas das suas mais impressionantes criações em São Petersburgo) encontraremos de imediato um elemento dissonante. A geografia não bate certo: Dikanka está mais próxima da então capital russa por algumas dezenas de quilómetros e, situando-se ambas  as cidades oblast nativo do escritor ucraniano, poucas ilações poderiam ser extraídas desta sucessão de títulos e temas. Tão longe se encontram os dois locais do destino final que se diria impossível aferir a medida de corrupção pespegada ao coração dos emigrantes. Todavia, na pequenez campestre das estepes ucranianas, esta cidade representa um degrau enorme. O próprio nome de Mírgorod parece surgir mais frequentemente em Noites do que neste próprio livro, normalmente com a conotação de pequeno centro urbano de dimensão respeitável, a estreia de concentrações humanas cujos corações se orientam para as capitais de zimbórios reluzentes do Império Russo.

Embora irmãos de género, as duas obras dificilmente poderiam ser mais diferente. Pankó, o Abelheiro, já não solta os prefácios espirituosos que tanto fizeram rir os apócrifos trabalhadores dos rolamentos editoriais enquanto imprimiam as suas páginas. Noites na Granja ao Pé de Dikanka abre com uma magnífica comédia sobre uma enorme feira e as peripécias casamenteiras de um grupo de foliões. Mírgorod estreia-se com um exercício de saudosismo familiar sobre a vida de dois velhotes simpáticos, seguida da sua morte natural e consecutiva e estudando os efeitos do desgosto no sobrevivente temporário (Um Casal à Antiga). Se em Noites já antevíamos a irreverente chama criativa do prosador rebrilhando na ponta dos sabres cossacos, aqui encontramo-la espreitando a cada esquina, pois Gógol não está apenas interessado na juxtaposição abrupta do absurdo, do trágico e do cómico; está mesmo decidido em sabotar as vidas das suas personagens. Morte e amor estão unidas pela intensidade da tragédia em muitas das suas passagens, e é para descrever os efeitos da separação atroz no espírito de um homem que consagra as seguintes palavras.

Mas quando voltou para casa, quando sentiu o vazio no seu quarto, quando viu que até a cadeira onde costumava sentar-se Pulkhéria Ivánovna tinha sido retirada, chorou, chorou muito, inconsolavelmente, as lágrimas corriam-lhe dos olhos baços como um rio.

A dança macabra da passagem das almas, por muito interessante que seja, já não fascina Gógol tanto quanto a impressão de que ela é intoleravelmente vulgar e comum, ao ponto de perder todo o seu sentido. Vidas de infelicidade repetem-se ao longo das eras, caminhando por trilhos paralelos ao longo de vielas lamacentas, e, numa demonstração de autonomia, o narrador impõe a sua própria experiência, de imediato avançando a história de um homem seu conhecido, também ele acometido de mágoas amorosas.

Qual a amargura que o tempo não leva? Qual a paixão que sai incólume da batalha desigual com ele? Conheci um homem, na flor da idade, cheio de qualidades e dotado de verdadeira nobreza. Conheci-o quando ele estava terna, louca, furiosa, atrevida e resignadamente apaixonado; pois bem, a sua bem-amada – bela como um anjo, meiga – , quase a meus olhos, foi levada pela insaciável morte. Nunca vi alma com acessos  tão terríveis de sofrimento como os do desgraçado amante, nunca vi uma mágoa tão forte, um desespero tão esmagador. Nunca pensei que um ser humano pudesse criar para si um inferno como aquele, sem sombra ou imagem de qualquer coisa que se parecesse com a esperança… Tinham-no sempre debaixo de olho, esconderam todas as armas com que pudesse matar-se. Duas semanas depois, inesperadamente, ultrapassou-se: começou a rir, a brincar. Deixado em liberdade, a primeira coisa que fez foi comprar uma pistola. Um belo dia, o som de um tiro aterrorizou os seus familiares. Irromperam no quarto e viram-no prostrado com o crânio desfeito. Um médico que se encontrava ali por acaso, e sobre cuja arte corriam lendas por todo o lado, descobriu sinais de vida no corpo, achou que a ferida não era mortal e, para espanto de todos, conseguiu curá-lo. Passaram a vigiá-lo ainda mais, nem à mesa do jantar lhe punham facas e cuidavam de esconder todos os objectos com que pudesse magoar-se. Não tardou, porém, a encontrar uma nova ocasião e atirou-se para debaixo das rodas de uma carruagem. Ficou com um braço e uma perna esmagados, mas voltou a curar-se. Um ano depois vi-o numa sala cheia de convidados: sentado à mesa de jogo, anunciava alegremente uma «petite ouverte» tapando a carta; nas suas costas, apoiando-se no espaldar da cadeira, estava a sua jovem esposa, brincando com os seus tentos.

Com esta última frase Gógol destrói o sofrimento do segundo homem e subordina-o à inconstância da volatilidade humana. Até esse ponto, a passagem permanece arrebatadora e até comovente; Gógol poderia tê-la conservado intocada e nós ficaríamos pensando que o pobre apaixonado teria acabado com a sua vida passado mais algumas horríveis tentativas de suícidio. Mas eis que ele se ergue subitamente contra o sentimento de miséria desse homem, introduzindo um desenlace que – na sua habitual prosa rápida – nos atinge sem aviso e com grande efeito cómico.

Pode haver risos. Até que regressamos à história e percebemos que o velho ainda está ali, sofrendo, encolhido e choroso, no canto em que o deixámos enquanto falávamos do segundo desafortunado inconstante. E agora, infelizmente, regressamos com outra perspectiva: Gógol roubou-nos algo, já não conseguimos sentir a mesma compaixão pelo viúvo. O velho perdeu toda a seriedade; a sua morte, toda a dignidade.

Sadismo narrativo ou premonição auto-biográfica? A sabotagem não é gratuita: vinte anos mais tarde, Nikolai Gógol regressaria de uma viagem à Palestina para morrer, em estado de doença, degradação e ascese, exactamente da mesma forma como a esposa do viúvo faleceu.

O resto do livro não é mais solarengo. Táras Bulba, uma estupenda novela (aqui reproduzida na versão de 1835, estou em crer), testemunha o regresso dos nossos queridos cossacos de Zaporójie, mas estes já não são os mesmos arruaceiros adoráveis que em Noites cortavam hostes polacas com uma eficiência sorridente. Esta é uma história de traição e violência, de matança indiscriminada e pululante perseguição anti-semítica. Nunca Gógol escreveu tão bem: a novela corre diante dos nossos olhares deslumbrados com o ritmo e a agilidade de uma cavalgada a toda a brida, e são numerosos os momentos de insuportável beleza trágica, como a lealdade de um cossaco que, como um Páris condenado, se apaixona pela princessa polaca da cidade que sitia, ou a influência castradora de uma paternidade portentosa.

Um outro tipo de agressividade – porventura psicológica – é recuperada em Víi, o descendente directo de Uma Vingança Terrível e que, enquanto história de horror tradicional, subtrai-se ao negrume de Mírgorod por se enquadrar num tipo de fabulismo popular. A verve irreverente não perde um grama da sua eficácia, mas aqui permanece inocente. Dê por onde der, o leitor aceita a história de terror como uma inevitabilidade ou um sub-tipo narrativo muito familiar, o que restringe quaisquer intenções escondidas que Gógol ainda possa ter.

De repente, a porta abriu-se, e a velha, curvando-se, entrou.

— O que é, minha velha, o que é que queres? — perguntou o filósofo.

A velha, sem responder, avançava para ele de braços abertos.

«Ena, ena, ena! — pensou o filósofo. — Mas não, minha linda! Já estás fora de prazo.» Recuou um pouco, mas a velha, sem cerimónias, voltou a avançar.

— Ouve, avozinha! — disse o filósofo. — Estamos agora nos dias magros, e eu sou um homem que nem por mil ducados tocaria agora em comida gorda.

A velha, porém, sempre de braços abertos, tentava apanhá-lo.

O mesmo já não sucede com a História De Como Se Zangaram Ivan Ivanovitch e Ivan Nikiforovitch, que encerra o livro com os relatos – frequentemente cómicos – de uma zanga entre vizinhos. Quão longínquos estamos dos habitantes da Granja, que resolviam as suas disputas com alguma afobação e doses generosas de vodka! O próprio objecto da dissensão – uma velha e inútil espingarda – parece gritar a futilidade de uma causa. A arma de fogo não nos remete para a galhardia cossaca, ou para as glórias ligeiras da guerra, mas para a mesquinhez campónia de protecção irracional. Ivan Nikiforovitch nem sabe como utilizar o arcabuz ferrugento, mantendo-o encerrado numa cave. Apesar disso, confessa-se muito aliviado por conseguir dar um tiro a qualquer invasor, e sente-se mortalmente ofendido quando o vizinho lhe oferece animais de quinta e até cereais em troca do instrumento bélico.

Quando escreveu Mírgorod, Gógol ainda não tinha sido vencido pelo surrealismo absurdo da condição humana, mas as avenidas e canais de São Petersburgo e a subsistência diária dos seus milhares de habitantes estavam já a obrar algo de admirável no escritor que, como apontou Nabokov, era insuperável quando não procurava conter os seus próprios ímpetos. Noites define um estilo; Mírgorod encaminha o prosador para muitos dos temas que viriam a encontrar berço nos Contos de São Petersburgo ou em Almas Mortas. Pela subtileza com que ensombra o céu das suas galerias temáticas, pela sabotagem narrativa e sobretudo pelos gritantes e jocosos saltos entre o trágico e o cómico, Mírgorod é um livro que interessará vivamente a um leitor experimentado de Nikolai Gógol.

Mírgorod encontra-se editado em Portugal numa edição superior da Assírio & Alvim. Conta com a tradução escorreita de Nina Guerra e Filipe Guerra, que preserva praticamente intocada a genialidade prosadora de Nikólai Gógol (e atenção que isto é um luxo de que muitas outras línguas não se podem gabar). Entusiasticamente recomendável.
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