Disquiet on the Eastern Front

Do denso – mas vorazmente legível – bestseller do britânico Antony Beevor (Stalingrad), sobre os conflitos armados da Segunda Guerra Mundial em torno dessa cintilante e propagandística cidade das margens do Volga, podem retirar-se registos muito pessoais que compensam o entusiasmo militar do autor – infatigavelmente dedicado a descrever as operações e movimentações dos contigentes militares da Wehrmacht ou da Krasnaya Armiya.

Acho que são os pontos altos do livro. Pois se este não consegue transmitir o horror daquele espaço de desumanização colectiva – e haverá algum que o consiga? – o industrioso autor percorre arquivos recentemente abertos pelas poeirentas antigas autoridades soviéticas e resgata cartas e mensagens fascinantes.

Deixo aqui dois exemplos, duas cartas escritas por soldados alemães durante o primeiro ano da ofensiva oriental (1941), naqueles meses que bordejaram o violento inverno russo e congelaram a Wehrmacht às portas de Moscovo. No ano seguinte viria Estalinegrado, a “vala-comum da Wehrmacht“, e a maior demonstração de perda de vida humana a que a história tristemente já assistiu.

Vale a pena manter presente estas duras realidades, enquanto se lê dois perturbantes exemplos de humor negro alemão.

Notas para Aqueles em Licença Militar

Nunca se esqueça que está a entrar num país Nacional Socialista cujas condições de vida são muito diferentes daquilo a que está acostumado. Deve ser cordial para com os seus habitantes, adaptando-se aos seus costumes e evitando os hábitos a que se tem afeiçoado tanto.

Comida: Não deve arrancar a madeira do soalho em busca das batatas, porque estas normalmente estão guardadas numa divisão própria.

Recolher Obrigatório: Se se esquecer da sua chave, tente abrir a porta recorrendo ao objecto circular e protuberante. Só em casos de extrema urgência deverá utilizar uma granada.

Defesa contra Resistentes [Partisans, no original]: Não é necessário andar a perguntar aos civis qual é a palavra-chave, nem abrir fogo sempre que receber uma resposta insatisfatória.

Defesa contra Animais: Os cães com minas amarradas são um aspecto específico da União Soviética. Os cães alemães, no máximo, mordem, mas não explodem. Disparar sobre todos os cães à vista, embora recomendável na União Soviética, poderá criar uma má impressão.

Relações com a População Civil: Na Alemanha, se alguém estiver vestido com roupas de mulher isso não significa forçosamente que sejam partisans. Apesar disso,  são muito perigosas para qualquer pessoa de licença.

Geral: Enquanto estiver de licença na Pátria, tome cuidado para não mencionar a existência paradisíaca na frente oriental da União Soviética, ou toda a gente quererá vir para aqui e estragar o nosso conforto idílico.

Isto era a frente oriental. A frente de horizontes sem fim, de aldeias queimadas, campos incendiados, fome para soldado e civil. A frente de cães armadilhados, de investidas suicidas, de ataques traiçoeiros, da degradação moral constante. De lama, depois de gelo. A Grande Armée já a conhecia de 1812, mas a loucura humana aparentemente achou que ainda faltava algum sangue nas estepes.

Os alemães passaram dois Natais nas frentes russas, em 1941 e em 1942. Não foram ocasiões muito festivas, e o primeiro ano foi especialmente desolador para todos aqueles jovens que comungavam a crença de uma vitória rápida. Alguns perceberam que um regresso às velhas tradições era impossível, destruídas que estavam pelo modo de vida social-nacionalista em que tinham embarcado com ardor. Um deles escreveu a seguinte paródia.

Não haverá Natal este ano, pelas seguintes razões:

José foi recrutado pelo exército; Maria alistou-se junto da Cruz Vermelha; o Menino Jesus foi enviado para o campo juntamente com as outras crianças para evitar os bombardeamentos; os Três Reis Magos não puderam arranjar vistos porque não conseguiram provar a sua origem Ariana; não haverá estrela de Belém devido ao apagão obrigatório; os pastorinhos foram transformados em sentinelas e os anjos tornaram-se operadoras de telefone (Blitzmädeln).

Só resta o burro, e não se pode ter um Natal apenas com um burro.

Esta carta foi interceptada pelo Exército Vermelho. ‘Não percebo‘, escreveu um oficial no final da tradução. ‘De onde é que isto vem?

O Sexto Exército da Wehrmacht passou um Natal em Estalinegrado. Encurralados,  conscientes do seu fim próximo, os soldados ofereciam os últimos mantimentos ao amigo que estava a seu lado. Muitos morreram à fome nos dias seguintes, felizes por ter oferecido uma côdea regelada ao seu semelhante. Esta comovente ocasião, berço da Stalingrad-Madonna, é um impressionante tributo à chama de humanidade que rebrilhava timidamente no interior daqueles crâneos condenados.

Cartas e registos recolhidos do Tsentralnyy Arkhiv Ministerstva Oborony – Podolsk (Arquivo Central do Ministério da Defesa – Podolsk) por Antony Beevor, em Stalingrad.

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One thought on “Disquiet on the Eastern Front

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