Tal e qualia como um romance

lodgeUma capa elegante, sumariamente composta, classicamente sedutora: até para um contumaz agastado pelo marketing livreiro se torna excepcionalmente difícil resistir. O Romance e a Consciência (Consciousness and the Novel), de David Lodge, reúne todas estas características e, não contente com isso, promete-me um conjunto de ensaios sobre o fenómeno da consciência humana, integrados numa perspectiva literária que não se reduz ao gelado escrutínio da neurociência. Como não permitir que uma tal embalagem desfira um potente rombo na minha contenção financeira? Agarro no livrinho e vou para casa, contente.

Há duas observações que posso fazer quanto a este livro, e nenhuma é particularmente crítica. Em primeiro lugar, senti alguma surpresa quando verifiquei que a edição é afinal enganadora: dos 11 capítulos, apenas o primeiro versa directamente sobre o tema da consciência, e uma boa parte dessas oitenta páginas acaba por ser mais cómica que informativa. Assim, e por exemplo, antes do final do livro teremos aprendido que:

  • O conceito de consciência não existia antes do século XVII;
  • A epistemologia cartesiana é afinal o produto premeditado da busca vitalícia por uma tipologia da consciência;
  • Nada existe para além da consciência e observação humana.

Após as devidas gargalhadas, o leitor encontra um conjunto de ensaios sobre figuras tão diversas como Charles Dickens, Henry James, John Updike, o papá Amis, o filhote Amis, Evelyn Waugh, ou Kierkegaard. Uma secção admiravelmente concisa e sistematizada aborda o papel da crítica na criação literária, e no final deparamo-nos com a transcrição de uma entrevista em que Lodge dialogava sobre o seu próprio Pensamentos Secretos.

É uma grande bagunça, mas não me incomodou muito, possivelmente porque o primeiro capítulo é das coisas mais interessantes e descomprometidas que já escreveram sobre esta tema, sem prejuízo das excepções supra apontadas. Num percurso muito pessoal, a viagem pelas técnicas narrativas revela-se instrutiva e concisa, e a dissertação sobre a análise literária dos qualia literários (a expressão subjectiva de uma experiência consciente) roça a eloquência e adquire a força de uma revelação – pelo menos até aprendermos que críticas lhes são apontadas. Os amantes da literatura há muito que mereciam uma abordagem límpida feita por um dos seus. Mesmo os restantes capítulos – agrupados segundo a implacável técnica editorial do parachute insertion – lêem-se com agrado e encontram-se bem pesquisados.

O único pecado capital de Lodge encontra-se na forma como aborda a cronologia de inovações narrativas, um assunto em se mostra irreparavelmente anglo-centrista. Bem-intencionado e intencionalmente simplista, depois de alinhar alguns apontamentos sólidos sobre a tríade de inovadoras do discurso indirecto livre (Burney, Edgeworth e Austen), Lodge vai dar um longo salto em busca do próximo marco decisivo no aperfeiçoamento desta técnica. Como o realismo inglês foi uma xaropada pegada, só o encontra na viragem para o século XX, com Henry James ou James Joyce.

O problema de tudo isto é que o realismo literário inglês praticamente não chegou a existir. Confundi-lo com o Vitorianismo (esse sim, intoleravelmente entediante) acarta o perigo de enfiar no mesmo saco correntes muito distintas e equivale a defenestrar tumultuosamente um século inteiro de produção francesa. As duas marcas de realismo são inteiramente inconfundíveis, e a empinada turgidez das afectações vitorianas estava sendo redimida – na altura – por aquilo que senhores como Balzac, Flaubert ou Zola andavam a fazer do outro lado do canal.

Mas há mais. Ando a ler histórias de cossacos em Gógol e vejo que ele faz extenso uso do discurso indirecto livre de um modo muito irreverente e desinibido (estamos em 1831-1835, período das Noites e Mírgorod). Um dos seus truques preferidos é utilizar um narrador que não participa na acção, mas que tudo relata como se o fosse, envergando o entusiasmo próprio de um protagonista e adoptando as emoções das personagens que vai narrando. A trama folclórica do seu período idílico – tributária das tradições contistas orais – também ajuda consideravelmente. O mestre Stendhal, por exemplo, escreve por volta de 1830, e é um pré-realista que toma máximo partido da sua prosa improvisacional, com grandes convergências de perspectivas e vozes. Também encontramos algo de semelhante, num estilo ricamente trabalhado e teatral, com o nosso tardio e caríssimo Eça de Queirós (que já não é nenhum desconhecido em terras inglesas, depois da homenagem bloomiana). E até a Madame Murasaki já brincava com o discurso indirecto livre há cerca de mil anos atrás, no seu lindo Romance do Genji.

Neste ponto, o livro de Lodge precisaria de um aviso semelhante aos que tantas vezes incluímos nas nossas indicações rodoviárias a amigos. “Se encontrar Henry James, já foi longe demais”. Mas percebe-se a atrapalhação do autor que, radicado em Inglaterra, não consegue desenterrar campeões autênticos do realismo inglês para dar continuidade à sua devoção a Austen. Para tanto, teria de se resignar a George Eliot, esplendidamente inútil numa análise de técnicas narrativas. Mesmo os grandes vultos da literatura inglesa desse século – como Charles Dickens, que Lodge aborda num excelente capítulo avulso, sob o crivo biográfico – floresceram a despeito do Vitorianismo, nunca por sua causa, como o autor certeiramente reconhece mais tarde. Tantos outros – derramemos uma lágrima pelos dramaturgos ingleses do século XIX – não escaparam incólumes. Reconhecendo implicitamente que, para efeitos de exploração psicológica da consciência através da técnica narrativa, o Vitorianismo não foi particularmente inovador, Lodge dá por perdido grande parte do século de ouro francês e do período de invenção literária russo. Sei que não é sua intenção gizar um grosso estudo académico de literatura comparada, mas o tema da consciência na literatura é forçosamente transversal às nacionalidades deste mundo, e não teria magoado inserir uma ressalva que despisse o trabalho de pretensões universais – especialmente de alguém que está familiarizado com Mikhail Bakhtin e a polifonia dostoievskiana.

Claro que nada disto rouba o valor e interesse deste conjunto de ensaios, o qual eu recomendaria sem demais reservas aos interessados de literatura inglesa. Digo interessados em literatura (e não tanto curiosos da representação literária da consciência) porque a abordagem de Lodge é a de leitor e escritor – muito como a nossa. Também abundam surpresas agradáveis. Nota-se uma grande ternura e respeito no capítulo que percorre a biografia de Dickens, por exemplo, e penso que a sistematização dos meios de crítica literária enquanto instrumentos auxiliares à criação literária também é admirável, como já referi. O capítulo sobre o Howards End de E.M. Forster é outro ponto alto (mas pouco audacioso), e a depuração e análise que Lodge faz da complexa correspondência entre pai e filho Amis é muito útil para aqueles que estejam interessados nestes dois romancistas e queiram iniciar a leitura das suas cartas.

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2 thoughts on “Tal e qualia como um romance

  1. que blog delicioso. não te posso ler senão vou a correr comprar todos os livros sobre os quais vais escrevendo.

  2. […] ‘Tal e qualia como um romance’ […]

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