Confundir o teatro com o bardo

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Uma perspectiva a partir das galerias do terceiro andar

Assistir a uma representação teatral no renovado Shakespeare’s Globe constitui uma experiência polarizante a que poucos se mantêm indiferentes. Se isto é aplicável ao visitante ocasional, muito mais o será ao britânico amante das artes de palco que desde 1997 assiste ao crescimento, fortalecimento e florescimento desta recreação do Globe original. O local e as dimensões do novo teatro podem não ser símiles irrepreensíveis do seu irmão distante que encerrou em 1644, mas todos os restantes aspectos – desde o anfiteatro sem cobertura, atravancado com numerosas colunas, até aos bancos de madeira desconfortáveis – foram submetidos a uma escrupulosa reprodução. Tão rigorosa, de facto, que se temeu estar a transformar este recinto de Southwark numa espécie de Disneylândia teatral ou McBardo para turistas – temores que atingiram o seu auge após a estreia do sacarino Shakespeare in Love em que a apaixonadíssima Paltrow e o fogoso Joseph Fiennes tiravam as suas tenras vidas diante de uma plateia isabelina em estado de intensa hipnose.

Felizmente, toda esta consternação se revelou infundada, e o espaço beneficiou da sóbria gestão de Mark Rylance, o qual teve tanta fé no projecto que escolheu abdicar de alguns anos da sua magnífica carreira ao desdobrar-se entre as funções de gerência, encenador e actor no seu próprio palco. Dominic Dromgoole é o actual administrador, perpetuando o labor de desenvolvimento de uma instituição que nos últimos anos tem batido em facturação os seus congéneres, mesmo sem qualquer subsídio estatal. Dromgoole carrega sobre os seus ombros a tarefa de combater raivosamente qualquer voz crítica que descredibilize o Globe (mesmo quando não existe qualquer voz crítica a descredibilizar o Globe, apenas aspectos concretos das suas peças, mas let’s not split hairs). Dominic é um homem pouco subtil, mas compreende-se a sua atitude de defesa preventiva. Se hoje o novo Globe floresce, as críticas de outrora choviam mais copiosamente que os aguaceiros que penetram com facilidade pela cobertura esventrada e encharcam todos os presentes. Actuar no Globe é exigente: o espaço não tem altifalantes, acústica aperfeiçoada, ou sequer grandes holofotes. A maior parte das peças que aí se representam são shakespearianas, e é fácil perceber as consequências de não ter uma dicção exemplar ou uma projecção de voz ribombante. Não existem cortinas ou cenários, a luz é inteiramente natural, e os camarins são de uma pobreza franciscana. Não há distância entre o palco e a plateia, não existe misericórdia ou protecção contra os seus olhares indiscretos e turbulentos. Os actores adoram-no.

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Representação transversal das estruturas do Globe

Ainda assim, desde a abertura do teatro que alguns observadores criticam a influência da turba na sua actuação. A observação é pertinente. Fiel ao seu passado, existe uma hierarquia logística no Shakespeare’s Globe que não se coaduna aritmeticamente com o peso das bolsas: por 5 libras, qualquer um pode ir para o terreiro, o equivalente a uma plateia desprovida de assentos com a lotação máxima de 700 pessoas e a melhor visibilidade (salvo o ocasional colosso de Rodes). Já por 23 a 33 libras, é possível tomar lugar nas galerias ou nas cadeiras atrás dos groundlings – dúbio designativo semi-afectuoso para a malta que despende um fiver e fica de pé durante três horas, à mercê dos elementos. Não é brincadeira. A maior parte dos turistas abandona o teatro durante o intervalo, e lá ficamos nós, os pechinchas ou os convictos das virtudes da proximidade com os actores, com mais um bocadinho de espaço para estirar os calcanhares.

A excentricidade logística tem uma raiz predominantemente histórica, uma vez que no século XVII, o importante não era sorver intelectualmente o espectáculo mas desfrutar da ocasião social. Como as representações eram morosas, por vezes emparelhadas, as pessoas traziam víveres e bebida. Na plateia, jogava-se, conversava-se, e por vezes até estalavam alguns comportamentos muito pouco decorosos. No Verão, o fedor era insuportável; stinkard passou a ser um sinónimo corrente de groundling, embora não fosse somente nessa estação do ano que os seus odores nauseabundos marcassem as finas aragens. Sem retretes ou latrinas, os espectadores eram convidados a aliviar-se no próprio recinto como lhes aprouvesse (fenómeno que indubitavelmente inspirou o título da peça homónima e que eternamente lhe contaminou qualquer apreciação académica). Toda a gente coscuvilhava e cochichava aberta e ruidosamente. Para a pavoneante nobreza, ser visto e admirado assumia a máxima importância, motivos que – para além da fuga ao fedor – justificavam a ocupação dos camarotes imediatamente acima do palco (não reconstituídos no novo Globe). Esse seu poiso proporcionava uma visibilidade dos actores absolutamente medonha, mas dali podiam ser invejados por toda a plateia e mais facilmente degolados à saída, numa viela dos bairros de charme de Maiden Lane.

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O novo Globe, durante um frio mês de Inverno

Infelizmente, já não há nada disso. Hoje, nas margens rehabilitadas de Southwark, ao lado do Tate Modern e com o Tamisa pela frente, o local é naturalmente apelativo. É normal encontrá-lo pejado de excursões de escolas durante os meses de Primavera e Verão (cruzes credo: eles lá levam as criancinhas a ver Shakespeare, e elas não morrem imediatamente). Outra espécie comum é o turista americano e a sua família, perspirando com o receio de não compreenderem o inglês isabelino mas rapidamente maravilhados após alguns actos. Contra todas as expectativas, Shakespeare mostra-se acessível, e já haverá muito para elogiar no Globe se chegarmos ao fim da sua vida útil e o seu maior mérito tenha sido o de introduzir a todas estas gerações (de um modo correcto e sóbrio, ainda que não soberbo) as obras do maior escritor da era moderna.

Intimidade perante o texto, mas também proximidade para com os actores: parece ser este o grande mote do Globe. O problema reside aí mesmo. Sob os narizes dos actores estendem-se 700 pares de olhos fixados em cada um dos seus mais movimentos. A audiência aplaude e vaia ao sabor das declamações. Numa encenação inicial do Mercador de Veneza, Shylock foi repetidamente apupado, suscitando algum incómodo da parte de um crítico que denunciou o ascendente moral da audiência sobre os actores e exprimiu o receio de que a configuração do Globe pudesse estar encorajando comportamentos não apenas rudes, mas também amorais (no caso em apreço, promovendo uma arena livre à fomentação de ira anti-semítica). Rylance respondeu às críticas, sublinhando que o Globe representa uma forma diferente de representação, e que os apupos a Shylock não deveriam ser integrados num movimento de ódio racial mas antes no repúdio da própria personagem.

Os defensores do Globe insistem que o seu palco representa um paradigma diferente de representação. Mais impressionante será recordar que estamos diante de teatro tal como este se praticou durante milhares de anos, em anfiteatros luminosos ou estrados abertos. Para um actor, é inquestionável o fascínio de poder olhar para uma plateia de olhos esbugalhados e aprisioná-los a cada uma das suas palavras. Mas não se pode desconsiderar o efeito nefasto do actor que pouse o olhar num espectador distraído ou bocejante. Num anfiteatro convencional, os actores são morcegos cegos, protegidos pela escuridão e cegueira. Conseguir descortinar a segunda fila, através da plumagem luminosa dos holofotes quentíssimos, é extremamente invulgar. No Shakespeare’s Globe, todavia, os groundlings chegam a receber nas suas feições embasbacadas o ocasional perdigoto desgarrado. Embriagados destas possibilidades, alguns encenadores exploram a existência do terreiro, adornando-o com adereços numa tentativa de rodear os groundlings da própria representação. O expoente máximo desta palermice ocorreu em 2007 por dirigentes menos brilhantes que confundiram as virtudes da proximidade entre actores e audiência com o fetichismo e a interactividade gratuita. Um actor deve conservar a distância da plateia multicéfala, e uma das tarefas do encenador é – respeitando essa dicotomia tradicional (falo do teatro shakespeariano, não de quartas-barreiras contemporâneas) – aproximá-los com naturalidade e graduação. Felizmente, as últimas estreias deste ano confirmam que as encenações do Globe se encontram novamente no bom caminho, e que os seus maiores óbices regressaram a ser as singularidades do espaço e a qualidade dos actores que aceitam aí representar.

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O final de uma actuação no Globe. No Verão, alguns espectáculos prolongam-se até tarde, modestamente iluminados.

Quando a encenação é bem feita, quando os actores se mostram à vontade no complicado espaço, quando a representação toma partido dos dois andares, da varanda, das muitas colunas e entradas e saídas numerosas, quando a música é boa, a coreografia escorreita, e sobretudo quando a audiência o permite, quando tudo isso esteja reunido em prazenteira harmonia, assistir a uma peça de William Shakespeare no renovado Globe é uma experiência ímpar que supera o anacronismo do guarda-roupa renascentista e  exalta um aspecto primordial da arte dramática: a proximidade, o contacto, e a transmissão desimpedida de toda aquela maravilhosa poesia imorredoira que nos define enquanto Homens.

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