Prova de resistência

Conceito indeterminado, “fôlego narrativo” é expressão candidata a adornar uma crítica literária ou um comentário de contracapa. O seu habitat natural é o do romance histórico obeso, mas a sua presença já foi registada em obras que impressionam pelo vigor e confiança que o autor imprime aos seus conteúdos. Há quem a empregue como medida de comprimento do texto, há quem a use como a quantificação de génio prolongado. E dá um ar engraçado, dizer que tal e tal convencem pelo seu fôlego narrativo.

A maior parte dos leitores conhece o “Efeito Maias”. Especialmente temido nas escolas secundárias, ele refere-se à cruel experiência de ler algo que suspeitamos ser bom, mas que irritantemente tarda em arrancar, desbaratando os capítulos iniciais em intróitos e genealogias. Só a perseverança do leitor assegura a descoberta daqueles conteúdos maravilhosos que o unem ao livro. Erguer um dedo néscio ao escritor e acusá-lo de não ter fôlego suficiente para harmonizar os conteúdos do seu livro torna-se, portanto, bastante aliciante.

Os escritores seguramente não ignoram a heterogeneidade rítmica dos seus livros. Alguns aprenderam a brandi-la, abrindo os livros em força e lançando as redes sobre a atenção do leitor para seguidamente amainar a torrente narrativa. Ou então, jogando a sua cartada triunfal num ponto intermédio, permitem que o resto da história definhe, moribunda. Um post recente, referenciado pelo Guardian, salienta o exemplo do pós-pós-pós-epílogo ao The Return of the King (The Scouring of the Shire), e como a sua inclusão deliberadamente contextualiza os eventos anteriores e é essencial à sua interpretação – vejam o ponto 2. Para os não iniciados, o Scouring of the Shire trata das corriqueiras aventuras dos hobbits regressados da guerra, que encontram a sua simpática terriola posta a ferro e fogo por um bando extorsionário de pilantras escaramuçantes. O que é curioso é que tudo isto surge no final da extensa trilogia. Após o embate contra o colossal vilão. Depois da viagem de regresso (já de si invulgar). Após a despedida dos heróis (comum na narrativa épica anglo-saxónica antiga, rara na ficção contemporânea).

Charles Dickens, por exemplo, oferecia-nos narrativas sólidas e convincentes, mesmo quando as suas personagens se chamavam Chuzzlewit, Drood, Scrooge ou Pickwick. O leitor alinha, e olhem que não se trata apenas de suspensão de descrença. Procurem antes o motivo na confiança com que o escritor avança, de passo elegante e cartola empolada, através de parágrafos e capítulos, infalivelmente orientado pelos seus próprios conteúdos: um desfecho, uma revelação, um desenlace. Um líder de olhares. E se me é permitida a salganhada (bem como uma abrupta deslocação temporal), vou apontar também o exemplo de To Kill a Mocking Bird, de Harper Lee, livro de leitura recente e confessadamente fascinante. É uma história bem contada, por parte de uma grande senhora que “escreve do que conhece, de forma genuína”, e um exemplo magnífico de segurança narrativa. Eu rendi-me ao seu registo, que não tardou a convencer-me que sabia precisamente onde queria chegar, e por onde desejava atravessar.

Portanto, e sendo a pessoa optimista e solarenga que sou, assumo sempre o melhor dos mundos, cultivo o meu jardim, e penso sempre nestes grandes escritores quando alguém me recomenda um livro com base no fôlego narrativo do seu autor.

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