O regresso de Albion

É curioso que seja em francês que eu pense as minhas viagens, da mesma maneira que é essa língua que me oferece as colorações necessárias às reflexões dos trajectos transfronteiriços. Depois de regressar das mesmas ruas que Dickens descreveu (sem falar dos escritores e escritoras do Bloomsbury, “que viviam em quadrículas e amavam em triângulos“) ou dos lodgings do Dr. Samuel Johnson e o seu very fine cat indeed, é um francês do século XIX que melhor resume a viagem inglesa.

A son retour : — Quelle idée amusante m’apportez-vous d’Angleterre ? lui dit M. de La Mole…

Il se taisait.

— Quelle idée apportez-vous, amusante ou non ? reprit le marquis vivement.

— Primo, dit Julien, l’Anglais le plus sage est fou une heure par jour; il est visité par le demon  suicide, qui est le dieu du pays.

2ë L’esprit et le génie perdent vingt-cinq pour cent de leur valeur en debarquant en Angleterre.

3ë Rien au monde n’est beau, admirable, attendrissant comme les paysages anglais.

— A mon tour, dit le marquis:

— Primo pourquoi allez-vous dire, au bal chez l’ambassadeur de Russie, qu’il y a en France trois cent mille jeunes gens de vingt-cinq ans qui desirent passionnément la guerre? Croyez-vous que cela soit obligeant pour les rois ?

— On ne sait comment faire en parlant à nos grands diplomates, dit Julien. Ils ont la manie d’ouvrir des discussions sérieuses. Si l’on s’en tient aux lieux communs des journaux, on passe pour un sot. Si l’on se permet quelque chose de vrai et de neuf, ils sont étonnés, ne savent que répondre, et le lendemain matin, à sept heures, ils vous font dire par le premier secrétaire d’ambassade qu’on a été inconvenant.

Stendhal, Le Rouge et le Noir

E uma tradução livre, porque não:

No seu regresso: – Que ideia divertida me traz de Inglaterra? perguntou-lhe M. de la Mole…

Ele mantinha-se silencioso.

– Que ideia me traz, divertida ou não? retomou o marquês vivamente.

– Primo, disse Julien, o inglês mais sábio fica louco uma vez por dia; visita-o o demónio do suicídio, que é o deus do país.

Segundo, o espírito e o génio perdem vinte e cinco porcento do seu valor desembarcando em Inglaterra.

Terceiro, nada no mundo é tão belo, admirável, enternecedor como as paisagens inglesas.

– Agora é a minha vez, disse o marquês:

– Primo, porque foi você dizer, no baile da embaixada russa, que existem em França trezentos mil jovens de vinte e cinco anos que desejam ardentemente a guerra? Acaso crê que isso seja lisonjeador para os reis?

– Não se sabe como falar aos nossos grandes diplomatas, disse Julien. Eles têm a mania de abrir discussões sérias. Se nos limitamos aos lugares comuns dos jornais, fazemos figura de palermas. Se nos permitimos algo de verdadeiro e de novo, eles ficam pasmados, não sabem o que responder, e na manhã seguinte, às sete horas, informam-nos através do primeiro secretário da embaixada que fomos inconvenientes.

Ajuizar a deterioração do génio e do espírito é – pelas minhas bandas – um exercício de futilidade, actividade seca que incide sobre duas qualidades que nunca em mim primaram pelas suas decorosas alturas. Mais que um insulto elegante, sempre interpretei esta arrogante boutade de Julien no sentido de indiciar uma realidade societária tão simples, prática, e despida de presunção, que qualquer manifestação individual de brilho que nascesse empolada e embriagada de altivez perderia imediatamente grande parte do seu valor.

Isso é algo que até uma curta visita comprova. Há decerto uma vida comunitária admirável, e mesmo nos centros urbanos se assiste à discreta exaltação de um individualismo colectivo que alegremente se encontra estratificado por classes ou gostos. Hierarquia sem subordinação, estratificação sem perda de ambição ou modéstia. Talvez seja isso, viver em sociedade. Senti que era impossível subsistir numa respiração pesada de presunção. E nada mais natural do que levar a flâmula fátua da lamparina aproximar-se um pouco demais do papel em que laborava, alimentando com essas letras inúteis a chama da simplicidade purificadora. As linhas sobre as quais desesperei e cujo maior mérito seria o de destruírem o tempo de quem as lesse jazem destrambelhadas no fundo de um caixote. Também ele completamente despido de pretensões, seguramente.

Por exemplo: há alguns meses atrás diria que isto prefiguraria uma espécie de vita nuova (especialmente apta, tendo em conta os dissabores sentimentais que me regressaram em voga). Agora digo simplesmente que é uma simples continuação da grande vita vanus.

Mas há outras observações, tolices, realmente. A vida londrina, por exemplo, é apressada e apeada. O Tubo, sobrevalorizado e sobrestimado. Nada como uma greve de dois dias para o demonstrar, obrigando a caminhadas de Kensington até à City, ou a corta-matos pelos parques onde esquilos desavergonhados pulam nos relvados (e porque motivo me vêm à cabeça os javalis do Domínio dos Deuses? Deve ser tudo uma questão de brochuras e leões). Mesmo em dias comuns, eu era regularmente ultrapassado nos passeios por fogueteantes e diminutas loirinhas de saltos altos, e sou a pessoa com o caminhar mais rápido que conheço. Os advogados e executivos (que não usavam gravata – eu repito, não usavam gravata) calçavam ténis e embalavam parques acima e ruas abaixo. Não havia camisas coloridas ou invenções de blazer. Atléticos corredores embaraçados furavam os magotes do cosmopolitanismo com destreza e suor inodoro. Alguns dos melhores museus do mundo eram completamente gratuitos, locais gigantescos que reuniam as provas descomprometidas de séculos de pilhagem artística e histórica. Vamos desculpar a Pedra de Roseta. Ou os sarcófagos. Consta que o “Ginger” era já como se fosse inglês. Sutton Hoo é indubitavelmente deles (e assombroso! então era assim que se vestiam os gardena in gear dagum de outras tempos, hoje tão corroídos pelas eras como os versos fragmentários da Batalha de Maldon). E declaremos convictamente: os relevos assírios foram postos a salvo. Todos aqueles leões moribundos, trespassados de flechas e debruados a sangue, ter-se-iam diluído como lentas carcaças no deserto. Os frisos atenienses teriam derretido sob as chuvas ácidas da acrópole. É difícil não beber chá e pigarrear com uma pitada de colonialismo. Eu aqui a gastar fortunas para ir à Toscânia, Marcas e Veneza olhar para as Scuoli e estes meninos com uma colecção gordíssima de Bellinis, Crivellis e Veroneses na National…)

Oh, não é o pináculo da sofisticação e do conforto, mas é um sítio a que muito facilmente uma pessoa se habitua a chamar de casa.

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