Nove dedos de ambivalência

Em matéria de leituras contemporâneas do fantástico, dou por encerrada a leitura do segundo e terceiro livro da trilogia de Joe Abercrombie, The First Law. Sobre esta história já escrevinhei algumas notas que permanecem válidas (ainda que um tanto benevolentes face à aridez das 1077 páginas que se lhes acabaram por seguir).

Do segundo trambolho (Before They Are Hanged) não rezará certamente a história literária da ficção fantástica, já que os seus pontos altos se resumem a uma descrição prolongada, divertida, mas em todo o caso previsível de um cerco a uma cidade e das suas intrigas institucionais. O resto é enfadonho, pouco memorável, acudido apenas pelo oportuno humor negro. Sobre esse ponto, digamos que não é vulgar encontrar num romance, por exemplo, uma cena de tortura a imunes emissários diplomáticos, após os seus termos de rendição terem sido protocolarmente declinados e de lhes ter sido solenemente concedido um salvo-conduto até casa. Não quando as gerações de hoje só os sabem atirar para um ignoto poço espartano com um urro de masculinidade barbuda, tut tut.

Como no primeiro livro, Abercrombie faz amplo uso da intercalação cinematográfica de capítulos. É uma técnica justamente reputada poderosa, porque condiciona o leitor ao processamento paralelo de várias personagens, estimula a percepção de acontecimentos simultâneos, e conduz a uma culminação visceral em que os intervenientes da narrativa – até então separados – cohabitam impressivamente no mesmo invólucro de texto. Mas aqui, o engenho é usado gratuitamente e alcança um resultado contrário ao pretendido. É difícil empolgar aquilo que é naturalmente entediante, e a mistura de capítulos apenas coloca em evidência que uma das linhas narrativas é muito mais forte que as restantes.

Também já não são apenas as profanidades indiscriminadas que conferem uma mesquinhez irremediável ao corpo da trilogia. Before They Are Hanged é mesmo um fortíssimo candidato aos prestigiados Bad Sex in Fiction Awards. E se criassem um Best of the Bad Sex in Fiction Awards – à maneira do Booker – estou seguro que teríamos neste menino um cabeça de lista formidável (redutível apenas por um certo e determinado autor nacional). A desconfortável artificialidade das suas incursões pelos relacionamentos sexuais das personagens é simplesmente inenarrável (e rudemente inesperada). Ora assisto, feliz e pimpão, à dança de espadas entre cavaleiros e brutos, ora – no momento seguinte e sem a cortesia de um aviso – esbarro de nariz contra as cruas moções de um acasalamento sem sentido (a que se juntam as mui interessantes e pertinentes considerações sobre a duração do período refractário de um homem que involuntariamente pratica a abstinência). Difícil de acreditar que o mesmo autor que descreve tão facilmente a topografia dos campos de batalha ou a troca de argúcia entre inquisidores e políticos seja capaz de falhar este alvo mais escandalosamente que um bêbado num casamento em vésperas de Quaresma.

The Last Argument of Kings (o último tijolo), retoma o bom caminho e proporciona os habituais desenlaces satisfatórios: grandes batalhas, um inesquecível duelo até à morte, finais gloriosos para heróis cansados, e o prenúncio da queda de impérios. Digamos uma coisa da escrita de Abercrombie, digamos que ela é eficaz. Impossível não fremir comprometidamente quando a mais simpática das personagens, o bom selvagem Logen, perde a cabeça e embarca em carnificinas delirantes, teatrais e sombrias, cortando pessoas indiscriminadamente no auge de uma loucura escarlate. No equivalente a uma arma de destruição maciça dos tempos fantásticos, o homem mata tudo: uma distracção e um espirro, e já vinte homens perderam a vida da forma mais violenta e espalhafatosa que se possa conceber. Post actum finit, é claro que o bom selvagem não se recorda de nada (só faltando o inocente “it’s not me” para a comédia ficar completa). Também o registo narrativo não se faz rogado em acompanhar estas extravagâncias com frases exageradamente inflamatórias e dramáticas. Se estão a pensar como é possível que um gajo que ainda na semana passada andou a discorrer com prosápia sobre a condição humana na jornada metafísica de um romance de William Faulkner pode agora vir a apreciar estas escaramuças corriqueiras de emoções baratas, o mais inacreditável é que o autor consegue fazer com que eu não sinta um prazer culposo ou um remorso latente quando leio essas passagens. Há algo no seu tom que legitima a diversão e não me deixa sentindo sujo e juvenil por ter lido algo tão empolgante como desnecessário. É a Série B dos livros, meus caros – mas da boa.

O grande mérito destas histórias – que não é imediatamente óbvio – é o de trilharem equilibradamente no seio de uma pequenez calculada. Isto parece-me bastante raro num género em que todos tentam elevar as desventuras patéticas de um grupo de elfos e anões ao nível do verdadeiro mito. Abercrombie não anseia voos tão olímpicos. Concomitantemente, as inconsequências do seu do fôlego narrativo formam uma simbiose enrobustecedora da galeria de personagens, aproximando-as do leitor pela simplicidade. Chega uma altura na vida de um homem (normalmente em Maio) em que uma pessoa fica farta de ler bovarismos ou encenações pançudas de simbolismo e de pathos. Às vezes é preciso uma cerveja e uma história com espadas e muitos glóbulos vermelhos para coroar o final daqueles longos dias de trabalho que o calor já começa a amolecer.

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