Apóstrofo ou travessão?

Vivia numa bela mansarda parisiense, habitando num pequeno espaço com muita luz e uma gloriosa clarabóia. Tinha espaço para uma cama e uma mesa; os seus pertences encontravam-se espalhados por todo o lado em desordenação criativa e inspiradora como só um jovem artista consegue distribuir. Com efeito, o único espaço desimpedido parecia ser aquele onde um pequeno cavalete se erguia, e as telas que ocasionalmente lá colocava sorviam toda aquela maravilhosa luz das manhãs. Se pintava um pouco, como engodo para as suas musas, eram todavia as letras que na realidade clamavam pela sua atenção.

Terminou enfim o seu primeiro romance. Cinco meses de laborioso trabalho curvado sobre uma escrivaninha, duzentos e cinquenta dias de colação de notas, realização de emendas, leituras e revisões! Emagreceu alguns quilos; os seus olhos adquiriram o sombreado que as pensativas noites longas conferem aos memoriosos e aos apaixonados. A vizinha do andar de baixo adoptou-o como “o seu menino” e deixava-lhe algumas refeições caseiras; comentava-se mesmo, por entre quem o conhecia, que a sua aparência estava muito mudada, que tinha mau aspecto, que parecia doente. Mas a simples verdade era que o nosso jovem nunca estivera tão feliz e alegre.

Agora, apenas as exaustivas revisões ocupavam as suas horas. Revirava aquele texto, removendo cirurgicamente algumas palavras, plantando outras com carinho paternal e uma precisão académica. No final, só um problema; hesitava ainda entre o uso de travessões ou apóstrofos.

Apóstrofo ou travessão? O dilema pareceria simples a alguém da sua filiação literária. Na tradição latina, é evidente que se utilizavam travessões antes de cada diálogo.

— Por exemplo, assim — exemplificava. — Um traço para indicar que vou falar! É realmente muito simples.

Contudo, e enquanto ávido leitor, o nosso jovem não deixara de reparar que o apóstrofo era claramente favorecido na literatura de origem anglófona.

‘Que estranho, pensar que se eu fosse inglês falaria assim’, suspirou, olhando com atenção para o apóstrofo no início da frase.

Subitamente, o travessão pareceu-lhe agressivo. Um rasgo de linha, recto e violento, que se introduzia com turbulência no seio das suas frases e cortava a sua fluidez da mesma forma que uma pesada comporta de aço esventraria um rio cristalino.

— É forte! — pensou — muito forte! — E parou diante do espelho. — A frase fica toda rasgada! — exclamou. — e depois de um ponto, no diálogo, como este? — interrogou-se. — Começo a frase com uma maiúscula? — Reflectiu pesadamente sobre este assunto. — Ou devo apôr uma vírgula imediatamente a seguir ao travessão —, ponderou — para poder escrever com minúsculas? —, ruminava o nosso jovem.

Examinou o parágrafo anterior, apalpou-o cuidadosamente, estudou a sua forma. Finalmente, regressou ao texto original e substitui todos os travessões por apóstrofos. ‘Pronto,’ suspirou, ‘desta forma posso aninhar facilmente os meus diálogos dentro do próprio texto narrativo’. E sorriu, confiante de ter encontrado uma boa solução: ‘É bem mais elegante!’

Ainda assim, parecia-lhe que a elegância do apóstrofo era contrabalançada pela sua timidez. O sinal diacrítico não anunciava o iminente discurso com suficiente precisão e pompa, nem o demarcava com uma sólida linha do resto do texto. O olhar de um leitor arriscava-se a resvalar de um registo para o outro, a perder-se e a confundir-se nos meandros de blocos mais acentuados de letras…

‘Mas que raio!’, vociferava. ’Assim perco-me, ficando mais ridículo do que aquela minha personagem no livro que “não conseguia encontrar o caminho para casa nem que lhe dissessem ‘estás no teu bairro’“‘ . Ou seria antes necessário utilizar «» para citações? Não sabia. ‘ Não sei,’ Suspirou. ‘Não sei!’ tal como não sabia o que fazer quando a frase acabava numa exclamação ou interrogação: ‘É o mesmo dilema do travessão!’, desesperou. ‘Que hei-de fazer?’ interrogou-se.

Bloqueou. Os seus diálogos pareciam-lhe feios. Nada que se parecesse com os trechos dos seus livros preferidos, onde as vantagens e desvantagens do travessão ou do apóstrofo nem sequer lhe vinham à cabeça. Transtornado, deixou de comer. Tinha de haver uma solução.

Nessa noite, enquanto dormia, apareceu-lhe o fantasma de Filippo Tommaso Marinetti, que por alguma razão era muito gordo e usava uma cartola. Apareceu-lhe também Harold Pinter, que por algum motivo usava um capacete e exibia um bigode digno de um coronel do regimento das índias orientais.

— Não se deixe enganar — começou o primeiro. — É a minha opinião que se você tem uma ideia, deve utilizar qualquer combinação de formas. ‘Pode até alternar entre elas, se preferir.

‘Não se deixe enganar’, interrompeu o segundo, abanando o seu bigode vassoura. ‘Nas minhas peças de teatro, uma vez usei pontos para separar o nome das personagens das suas deixas. Outra vez utilizei travessões, e os críticos – espertalhões – ouviram a diferença e gostaram mais deles.’

— Ridículo!’ exclamou o italiano. — Absurdo!’ gesticulou.

‘Cavalheiro!’ indignou-se o inglês. Por quem me toma?’

O nosso jovem não aguentava mais. Voltou-se para o colchão e enterrou a cabeça sob a almofada enquanto os dois escritores rolavam pelo chão numa cena de pugilato espalhafatoso.

Alguns dias mais tarde, a vizinha do andar de baixo foi falar com a porteira, partilhando as suas inquietações acerca do jovem que não saía do seu quarto há algum tempo. Teria sucedido algo? O marido da porteira – um gendarme solícito – terminou o seu cálice de vinho e subiu ao sétimo andar. Nem um gemido acorreu do interior do velho sótão. Após breve parlamentação, decidiram arrombar a porta e chamar mais alguns vizinhos.

Encontraram-no prostrado na cama, uma expressão de terror sulcando o seu rosto hirto. O seu corpo jazia numa posição desconfortável e era aparente, pela forma como os lençóis se encontravam em desacordo, que se tinha agitado muito antes de morrer. Mas o mais estranho era que a divisão inteira estava coberta por uma espécie de fuligem espessa com um palmo de profundidade, numa negrejante massa compacta que dificultara até a abertura da porta. Olhando de perto, repararam que não se tratava de poeira ou cinza, mas de uma profusão inacreditável de travessões e apóstrofos, desenhados em letra negra, amontoados por todo o lado. Causavam comichão ao toque e muita alergia, e estavam até impregnados nas roupas do infeliz jovem. Antes que conseguisse examinar o soalho para recolher pistas, a polícia levou horas a varrê-los e a deitá-los pela janela fora.

One thought on “Apóstrofo ou travessão?

  1. Catarina diz:

    A NOMEAR, SEMPRE

    A nomear, sempre:
    a árvore, o pássaro em voo,
    o rochedo avermelhado por onde passa
    o rio, verde, e o peixe
    no fundo branco, quando desce a noite
    sobre as florestas.

    Sinais, cores, é
    um jogo, receio
    que o resultado possa ser in-
    justo.

    E quem me ensina
    o que esqueci? – O sono
    das pedras, o sono
    dos pássaros em voo, o sono
    das árvores, a sua fala
    anda pelo escuro –

    Houvesse aí um deus
    e incarnado,
    e que me pudesse chamar, eu andaria
    por aí, eu esperaria
    um pouco.

    Johannes Bobrowski, em Como Um Respirar – Antologia Poética, Cotovia, 1990, trad. João Barrento

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