Deambulação sabatina

No centro da cidade as lojas fechadas, os transportes agitados com os rostos das pessoas que viajam em direcção a uma artéria vital e a uma celebração e afobação; mas aqui em cima e por estes bairros quadriculares só descortino vultos solitários debicando montículos de lixo e entulho, casas lindíssimas de pedras pesadas abandonadas, janelas escancaradas, portões a cadeado, caixilhos apodrecidos, ruas de poeira fechadas pelas obras, uma velha à porta de uma mercearia pede-me uma esmola, outra está sentada mais à frente num cilindro anafado de betão inimigo do estacionamento, isto na Duque D’Ávila ao pé da padaria com grandes sacos de plástico entre os seus joelhos.

Uma galinha na ladeira de uma mansão da avenida da república, as narinas picadas pelo estrume urbano, o bicho está gordo e passeia-se pelo terrume selvagem onde as ervas ondulam com a brisa fresca, antes isto era a estreita passagem que alimentava uma garagem ao fundo, escancarada e com velharias, agora é ela que esgravata e será que estou a ver bem e um fio ata-a pelo pescoço? Passo por uma livraria aberta que vende autores falecidos há trezentos anos a vinte cinco euros, outra livraria está fechada e no metro encontro uma poça de vómito na carruagem central, serão folias da noite anterior, já foi coberta por serradura e pinga detergente derramado pelas filas ao sabor do arranque e paragem e arranque e paragem do comboio, raiando como um líquido atirado contra a superfície de uma parede e pela sua alvura descorrendo gravemente, em fiapos em muitas direcções, os passageiros desviam-se, os imprevidentes caminham até aquele lugar e dão um passo assustado para trás, o sobressalto das entranhas humanas etilizadas queda-os num pasmo de repugnância, somos todos tão previsíveis quando tudo ignoramos, um deles senta-se ao meu lado e  tira um telemóvel, e de repente somos dois imbecis que escrevem no telemóvel porque eu queria anotar uma passagem que lera na revista mas não queria tomar o trabalho de produzir um caderno da minha sacola ou arrancar a caneta dos confins do seu papo, isso daria demasiado trabalho.

Em casa atiro-me aos hebdomadários, só se fala deste dia e de algo que se passou há muito tempo, atendo uma chamada sou informado: o meu domingo vai ser passado no escritório, nos jornais entretanto narram-se citações jaculatórias de jovens que prometem a revolução para retirar os pobres das ruas ou lamentam poluição e o sistema nacional de saúde. O barbeiro de sevilha passa na Mezzo, dueto do segundo acto, pace e gioia sia con voi e eu rio-me como sempre.

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