A continuação dos romances

Na conversa da Câmara Clara de 19 de Abril, António Feijó e Vasco Graça Moura conversaram um pouco sobre um tema invulgar nos nossos dias: o romance e as histórias de amor. Um bom momento televisivo.

E trouxeram óptimos exemplos. Depois de avançar alguns apontamentos sobre a importância do corpo da obra de Shakespeare (em que o chavão bloomiano de “o inventor do humano” começa a fatigar), exibiu-se, de um lado o incontornável Madame Bovary, Chéri, O Eterno Marido. Do outro lado da mesa, perfilavam-se as obras de Camilo Castelo Branco, os seus Amores de Perdição e de Salvação, a sua Sereia. Mas também houve tempo para Jane Austen, O Vermelho e o Negro, A Princesa de Clèves.

Se eu tivesse de criar uma lista de cinco romances de amor, e tendo presentes as interessantes considerações que foram feitas durante o programa, provavelmente seria esta a lista: Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski, The End of the Affair (O Fim da Aventura) de Graham Greene, La Chartreuse de Parme (A Cartuxa de Parma) de Stendhal, Wuthering Heights (O Monte dos Vendavais) de Emily Brontë e a Vita Nuova de Dante Alighieri.

Estou perfeitamente ciente que a minha última escolha dificilmente se poderá considerar um romance, cinzelada como está sob o denominativo do libreto. É verdade que a sua estrutura dual aproxima-se mais do lirismo do que da veia romancista, mas também é interessante notar o efeito total que esta inscrição de amor a Beatrice provoca no leitor. Quem se depare com este texto só raramente sentirá que lê um punhado de sonetos, intercalado de notas explicatórias – ou até revisionistas – pelo poeta apaixonado: é maior o feito de Dante, de alcançar nesta pequena dedicatória uma voz especialmente honesta, livre, num registo tão genuinamente apaixonado e comovente que a forma concreta do seu invólucro simplesmente se desvanece.

As minhas outras escolhas são mais convencionais mas dirigem-se a algumas questões suscitadas no programa. António Feijó elegeu o adultério como o campo de eleição para o romance do século XIX, mas se isso é válido para uma Madame de Rênal ou uma Madame Bovary, já não o será para Heathcliff e Catherine Earnshaw, os protagonistas amorosos do assombroso Monte dos Vendavais de Emily Brontë. É a força do casamento, mas também a da adopção, dos costumes sociais e dos tratos familiares, que separam a bela Catherine do fogoso Heathcliff. É um amor sem consumação possível, que destrói Heathcliff e o atira para um trilho de crueldade e amargura que ainda hoje nos aparece como inacreditavelmente chocante. Mas esse é o poder do amor, e o romance regista como Heathcliff – traído pelas instituições da família – rapidamente se apressa a convolar essas mesmas linhas numa deturpação patriarcal, senhoriando uma prisão de aparências onde prolonga o seu sofrimento na geração seguinte.

Pelas suas personagens dramáticas, pelo horror e a maldade do apaixonado, pela mágoa do herói e a sua terrível obsessão em atormentar a geração de herdeiros (a quem impende a promessa de redenção do desgosto entre de Heathcliff e Catherine), Wuthering Heights gravou um lugar ímpar na história do romance amoroso. Tenho dificuldade ainda hoje em lhe encontrar uma obra que esteja em altura quando se trata de percorrer a irascibilidade e a fúria desses horrendos sentimentos que desfiguram e desfazem e condenam os apaixonados impossíveis, e actualmente – superado o formalíssimo registo vitoriano que contrasta maravilhosamente com a genuidade de emoções das suas personagens – duvido que seja possível igualá-lo.

Se este é um amor que não atinge a consumação, estamos todavia muito longe do platonismo suave que Noites Brancas exala. Acho que mencionar este livrinho depois de Wuthering Heights é tão apropriado como calmante. Os seus leitores poderão encontrar uma levíssima ficção, em que um sonhador conversa com uma linda jovem, apaixona-se, e depois – no sonho que é dele – renuncia à felicidade e deixa-a afastar-se.

Outra configuração frequentemente utilizada pelos romances de amor é a do triângulo amoroso. A minha escolha de The End of the Affair não destoa: simplesmente, quem se encontra no vértice é Deus. Este é o modo pelo qual Graham Greene redefine o romance católico em tempos de guerra. Sarah Miles, adúltera e apaixonada de Maurice Bendrix, atravessa um momento de desespero quando um V1 desmorona a casa onde os amantes proibidos acabavam de fazer amor. Bendrix parece morto, e uma lacrimejante Sarah implora a Deus que o salve, que lhe dê a vida, jurando-Lhe jamais pecar em adultério se ao menos aquele homem, que ela ama acima de tudo, não morrer. Bendrix levanta-se e Sarah é rasgada pela tristeza e alegria. O amante vê no seu estranho olhar a assumpção da existência de um outro amante, e o romance adquire a comovente e inexorável cinética de um aríete de aço, chuvas invernais, ciúmes profundos, e de um final trágico.

Resta-me a Cartuxa de Parma, que nunca é trágico mesmo quando é triste. Está na minha lista porque é uma celebração dos sentimentos de amor aristocrático e juvenil transplantado para uma esplendorosa Itália. Depurada dos conturbados quadros políticos que dominam o Vermelho e o Negro e a viagem sentimental de Julien, a exemplar narrativa contempla o turbulento percurso de Fabrice e Clélia à luz dos moderados Gina e Mosca. Quem poderá dizer quem são os verdadeiros protagonistas deste  romance? Apenas quem reconhecer que é do amor cortesão partilhado entre a Duquesa de Sanseverina e o Conde Mosca que os ímpetos de Fabrice podem ser melhor apreciados.

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