Tutores de fortuna e requinte

mailer-book190Por tudo o que escrevi sobre The Castle in The Forest, seria de esperar que o resultado desse exercício literário consubstanciasse uma explicação subjectiva – ainda que educada – dos caminhos de corrupção que o jovem Adolf Hitler tomou na sua infância, numa espécie de “explicação do monstro” aterradora e voyeurista que nos colocasse definitivamente numa confortável orla exterior de observação (havendo mesmo quem insista em criticá-lo quando nisso claudica). Mas no final da sua vida, Norman Mailer reserva-nos uma derradeira lição; a de que a natureza humana não pode ser explicada sem a inclusão auxiliar de forças invisíveis, que a nossa pobre e limitada subsistência então antropomorfizará sob a luz rectora do secularismo ou da religião.

No romance, estas influências externas tomam a forma de um agente do mal chamado Dieter, um diabo menor ao serviço do diabo maior que se encarrega da educação sentimental do nosso conhecido ditador nazi. Sim, diabos, o Demo em pessoa. É uma reviravolta inesperada, mas também uma cartada que surge muito cedo no livro (e que portanto não estraga a vida a ninguém – espero! – se for revelada de chofre como acabei de fazer). Mais tarde, Dieter assume a forma de um soldado das SS e tem de aturar as diatribes eugénicas de Himmler, pelo que é possível concluir que se comportou como um diabinho maroto e que provavelmente fez algo pelo caminho para merecer essa terrível despromoção e castigo.

Evidentemente, examinar a conduta humana sob a perspectiva das influências externas que anjos e demónios lançam sobre a sua alma não é tarefa nova. Só dentro do cânone ocidental, temos uma linha bem definida desde Baudelaire até aos tempos modernos, quando o tema adquire uma admirável sofisticação através de pelo menos duas obras imemoriais: o monumental Margarita e o Mestre, de Mikhail Bulgakov, e o inteligentíssimo The Screwtape Letters, de C.S. Lewis.

Confessemo-lo à partida; não podiam tratar-se de obras mais diferentes. Se me surgiu a ideia de contrastar as caracterizações teologico-transcendentais de Norman Mailer contra as de C.S. Lewis foi apenas porque a presença de anjos e demónios é uma ténue linha comum entre as duas narrativas.

screwtape51o-6kjiaol_ss500_Mas onde estão as minhas maneiras? Ainda não apresentei The Screwtape Letters. Este livro de 1942 consiste num conjunto de cartas dirigidas a um diabo-estagiário (Wormwood), por parte do seu tio Screwtape (um diabo-sócio com uma pensão brutal e regalias obscenas), escrito num registo de precisão magistral e por vezes gravemente hilariante. O popular livro conheceu uma pequena sequela em 1959, intitulada Screwtape Proposes A Toast. Ambos representam um triunfo da inteligência lúcida e observadora de Lewis.

Como o ponto de partida do inglês e do americano varia consideravelmente, não é de admirar que ambos guardem perspectivas quase inconciliáveis quanto à condição da alma humana e a sua porosidade às tentações da carne e do espírito. Se os agentes de Lewis trabalham por distorção e subtileza – nunca se manifestando, sussurrando eternamente – os diabos de Mailer obram continuamente mediante empurrões e safanões (chegando até a dar umas pauladas bem afinfadas naqueles Anjos metediços quando os apanham a jeito).

Em qualquer confronto directo, naturalmente que C.S. Lewis emerge como o escritor mais elegante e hábil. A atribulada vida do inglês e das centrífugas discussões, debates, regressões e revelações de fé que veio a suportar acrescem ao seu olhar límpido sobre as questões do cristianismo. Assim, por exemplo, Screwtape manifesta numa das suas cartas uma imensa alegria por constatar que um determinado humano está a afastar-se do cristianismo, reduzindo o seu culto regular a um vago e inócuo sentimento de religiosidade (de resto, como praticamente todos os cristãos modernos o fazem). Se não bastasse a sagacidade da observação, teríamos ainda o deleite de assistir a uma argumentação baseada em escritos de Coleridge! Isto, repito, só Lewis consegue fazer com naturalidade.

Norman Mailer é bastante mais violento, urdindo uma cosmogonia transcendental em que os poderes dos seus demónios impressionam quase tanto quanto as transgressões que estão autorizados a praticar. Dieter pode assumir formas humanas, controlar alguns pensamentos, manipular o mundo físico. Dieter consegue ainda criar sonhos e ideias, e introduzi-los na mente do petiz Adi Hitler. O conjunto destas moções prefigura o esbatimento dos limites do livre-arbítrio e um ataque cerrado à individualidade humana enquanto método elementar de corrupção demoníaca. Screwtape, pelo outro lado, gosta de exaltar a individualidade e com isso estimular o orgulho pessoal que exacerba o sentido de propriedade. Que é a propriedade privada senão a consequência final de um livre arbítrio desbragado; que será a expressão “meu Deus” se não uma deliciosa manifestação involuntária dessa propensão pecaminosa?

A sério, às vezes chega a ser irritante ler Screwtape, de tão brilhante que é em algumas observações.

The Castle in The Forest foi escrito devido à Segunda Guerra Mundial e à sua mais temível figura; The Screwtape Letters foi escrito durante esse mesmo período. Quer um quer outro previnem o leitor dos perigos da dilatação do ego humano: Mailer maneja com perícia essa tendência terrível e natural que é exercer poder sobre os seres que entendemos pensantes, ao passo que Lewis aflora a perigosidade de uma vida religiosa apenas na superfície, em que os maneirismos do culto e da “vida cristã” são assustadoramente deturpados e reordenados até se converterem numa verdadeira auto-estrada para o inferno (tinha de introduzir uma referência rockalheira, e Rolling Stones seria demasiado óbvio). Parafraseando Screwtape, é imprescindível que o pio homem genuflexado entre os fiéis esteja certo que o fulano ao seu lado é de algum modo menos digno, menos casto, menos religioso que ele. Com simplicidade e escassa presunção (o americano utiliza uma narrativa e um enredo admiráveis e autónomos, o inglês inscreve as suas ideias num registo cómico) eis dois livros que nos falam claramente da fragilidade dos nossos rumos e da importância de nunca cessarmos uma reflexão constante sobre as nossas fraquezas e a exploração

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