O voo dos cisnes

Em Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, Aleksandr Soljenitsin alcança a notável proeza de redifinir politicamente o conceito de Gulag enquanto espaço colectivo de sofrimento individual – um labor impressionante que culminaria no seu Arquipélago Gulag. Se a publicação deste curto e perturbador livro bastou para que se recolhessem ao ridículo aquelas vozes ocidentais que menosprezavam a existência dos infames campos de trabalho forçado da União Soviética, outro ainda é o mérito de Soljenitsinn: o de abarcar num registo duro e sintético, feito de farpas e metal gelado, as grandes matrizes existencialistas que veiculam o sofrimento de um homem politicamente reprimido. Que Ivan Denisovich seja o escolhido não motivará qualquer reflexão prolongada: aquele homem é todos os homens, e no decurso dos seus dias assiste-se à impressiva convergência entre uma rotina maquinal destinada à sobrevivência e o poder inviolável que os momentos íntimos de liberdade pessoal reclamam para o indivíduo.

Se começo – não de forma inteiramente ligeira – por referir um livro russo publicado em 1962 para escrever sobre um livro sino-inglês de 1991 é somente porque ambos retratam a sobrevivência de dois substratos humanos sob o jugo dos dois maiores regimes comunistas do século XX. Cisnes Selvagens (Wild Swans) é a crónica de três gerações de chineses que atravessaram o conturbado século de todas as esperanças e todos os horrores num país em perene revolução. A autora é  Jung Chang, jovem chinesa da terceira geração radicada em Inglaterra, que assim empresta ao livro o sabor de uma crónica pessoal.

Num registo que hesita e tropeça nas convergências entre a biografia familiar, o romance histórico e o manifesto político, a autora vai traçando um linha de vida a partir da época da sua avó. A narrativa contempla os tempos da ocupação nipónica da Manchúria, num sóbrio e interessante conjunto de capítulos que esboçam a transição entre duas eras extremas, desde o quasi-feudalismo e os seus costumes milenários até ao promissor eclodir da nova ordem social dos Maoístas. A mãe de Jung Chang é todavia quem recebe maior atenção, descrevendo-se detalhadamente o progresso de esforços, ilusões, desilusões, graças e desgraças associadas ao Partido, de que os seus pais eram evidentemente militantes acérrimos. É o período da simplesmente denominada Revolução, algumas décadas de história infame e eternamente mal explicada. Mao Tsé-Tung (ou Mao Zedong, para que não eu não passe por demodé no importante báculo do revisionismo transliterativo!) expurga a China dos maléficos capitalistas do Kuomitang, forçando Chiang-Kai-Chek a exilar-se em Taiwan. No poder – ou nunca demasiado longe dele – pretende que a China dê um Grande Salto Em Frente, decerto inspirado pelos muito mais inteligentes planos quinquenais soviéticos e pela NEP de Lenine. Declara então que todo o bom comunista deverá produzir aço, muito aço, aço acima de tudo.

Se a imagem caricata de uma China que abandona os campos, a indústria e a educação para alimentar estupidamente alguns magríssimos fornos caseiros é tragicamente cómica, lembremo-nos de como a imbecilidade política desse Grande Timoneiro resultou na desgraça da população geral. Jung Chang desconstrói o fenómeno mais exaustiva que inteligentemente, sendo frequentes os saltos de lógica nas suas constantes sentenças. Quando aborda as fomes que vitimaram um número horrendo de camponeses, por exemplo, refere as deficiências colectivistas da agricultura, esquecendo-se de dedicar igual atenção e entusiasmo por factores tão diversos como as grandes secas de 1960 no norte, as violentas cheias do sul, o final da guerra da Coreia e a desmobilização do exército, ou a evolução demográfica dos núcleos populacionais rurais, entre muitos outros catalisadores. Ao invés, o leitor é constantemente presenteado com quadros simplistas de imputação dolosa muito geral, com evidente prejuízo para o registo que nesses momentos assume a pretensão de um estudo ponderado e referencial.

Central na hierarquia de valores surge a família chinesa, sobre cuja unidade de parentesco e espaço de protecção gregário são perspectivadas as atribulações políticas e sociais da China Maoísta. A revolução soviética deparou-se com um panorama diverso, onde a família – embora conservasse laços de união superiores aos das terras ocidentais – não era a força motriz do desenvolvimento humano adulto nem nunca mais o seria da economia. A genealogia do livro apresenta-nos pois uma avó devota aos valores familiares. Já a mãe da escritora transporta a mesma mentalidade para o Partido, numa atitude reveladora do campo de eleição para o reformismo Maoísta. Quando tem de escrever ao Comité do Partido em Jianzhou a “pedir autorização para falar de amor”, a mãe da narradora não acha nada de estranho nisso, pensando “que seria um pouco como pedir autorização ao chefe da família”.

Mas quando o “patriarca” recusa e critica os enlevos amorosos do casal, a militante mãe é incapaz de aceitar a sentença com serenidade. Ela já não sabia – como soubera a avó – obedecer incondicionalmente, sem manifestações externas de desilusão. Embora não se aperceba disso, nenhuma força de vontade poderia fazer do  Partido o patriarca, enquanto chefe de família tradicionalmente chinês. No espaço de uma geração, destruíra-se o templo familiar para se empinar no telhado uma entidade politizada que não sabia comandar o mesmo respeito – embora pugnasse em redobrados esforços de atemorização.

A perda de uma nobre e linda continuidade familiar legitima a suspeita de que a China tenha renunciado à sua própria identidade. Espantosamente, a autora não tece o menor dos comentários a este assunto. O livro emagrece rapidamente perante a aparência de três grupos exclusivos de intervenientes: o casulo de Jung Chang (sempre oprimido) os comunistas (sempre opressores), e apenas muito ocasionalmente outras famílias vítimas, sem palavras para o desenrolar do quotidiano dos dias, das paixões secretas. Não é por devaneio que Soljenitsin aborda a rotina da opressão, nem despropositado quando – meras páginas adentro – gasta um parágrafo com o enfermeiro do Gulag que escrevia um livro às escondidas.

O comunismo soviético seduzia pelas promessas de igualdade espiritual que prometia, numa ficção de legiões populares instruídas e senhoras dos seus meios de produção. Era fácil assim pensar porque o centro da sua vida era o indivíduo, protegendo-se por extensão tudo aquilo em que o seu interesse tocasse. Sem o apego instintivo da família, a identidade russa foi sobrevivendo pela irmandade de vontades, pela poesia, pela resistência. Na China, destroem-se as barreiras de um terreno para além dos quais as pessoas – habituadas a erigir a família como núcleo açambarcador – nunca souberam viver.

Mas a grande crítica que oponho a este livro é que não me ensina nada sobre o modo geral de sobrevivência dos chineses durante o jugo comunista. A autora não me fala dos seus sonhos enquanto colectividade, na verdadeira extensão da crença no Livrinho Vermelho, ou muito menos dos seus pensamentos subterrâneos. As dúvidas existenciais dos seus pais assumem o primeiro e único plano, furtando-nos de termo possível de comparação.

A essência do descontentamento e os traços de reacção contra ameaças não são meras diferenças entre maoísticas e soviéticos: são essenciais para compreender como um e outro povo encara e resiste à adversidade. Quando quatro milhões de russos ficam cercados em Leninegrado durante o segundo ano da ofensiva Barbarossa, as bibliotecas permaneceram abertas, e em cantos escuros e frios declamava-se poesia. Os versos de Konstantin Simonov consolavam o espírito, da mesma forma que a Sétima Sinfonia de Shostakovic inflamava esperanças. Eliminemos os alemães, declarava-se, e depois poderemos regressar às coisas belas da vida, aos livros e ao amor.

Já a vida dos chineses é narrada no mesmo registo impassível quer se encontrem sob o jugo dos japoneses, do Kuomintang ou de Mao. Fica a noção – à qual a autora é insensível – de que ao povo chinês nunca foi permitido aceder a uma forma de cultura específica que os protegesse com a capa do escapismo e da identidade.

Mais exasperante isto se torna quando a autora não esconde as interessantes inflexões ocidentais na cultura deste povo (como a Madame Bovaryde Maupassant“). Duas linhas do obeso livro são dedicadas à descrição da corrente poética da Lua Nova, influenciada por Keats, ou então a Gorki – que podia ser lido às abertas durante o estalinismo. São dados fascinantes para alguém que sempre se habituou a ver a imensa China fechada sobre si mesma, com abruptas fronteiras a sinalizar uma igualmente precipitada quebra face à cultura do exterior. Uma mão editorial mais competente deveria ter urgido o desenvolvimento destes tópicos, com evidentes benefícios para o público-alvo ocidental. Em vez disso, Jung falha completamente, preferindo informar-nos que Le Rouge et Le Noir era considerado literatura erótica ou que os mistérios de Conan Doyle tinham muitos admiradores.

Esta vontade de exibir a sua ocidentalidade atinge o seu auge quando a autora se refere aos “chineses” como uma entidade estranha a si mesma. Os chineses acreditam que o peixe faz crescer as crianças, conta-nos; os chineses acreditam que onde entram gatos se encontra um lugar de santuário, eles acreditam nisto, eles acreditam naquilo, os primitivos. Mas quando se trata de referir os enganos de que foram vítimas, a autora inverte o discurso, julgando conveniente incluir-se nessa massa de oprimidos.

Conclusão, o livro sabe a pouco e fatiga muito, acumulando detalhes com a volúpia de um prontuário de fait-divers totalitários. Quando a autora não está demasiado entretida a procurar chocar o leitor a todo o custo com expressões do género “filha à venda por dez quilos de arroz” ou a mostrar fotografias suas nas ruas de Itália, produzem-se resultados interessantes e entreabre-se uma cortina para uma época que carece urgentemente de interpretação. Só é lamentável que ela seja incapaz de abrir a janela por detrás desse véu. O absurdismo experimental de Gao Xiangjian – bem como a espiritualidade das suas últimas obras – permanece consideravelmente mais destilável, deva embora sujeitar-se a uma interpretação retroactiva que extraia a quintessência da alma chinesa. Isto para não falar de autores que produziram importantes obras durante o período Maoísta, como Liu Qing ou Wu Qiang, verdadeiros timoneiros do povo que desejo um dia ler atentamente.

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One thought on “O voo dos cisnes

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