O desenrolar da prosa de Clarice Lispector fascina-me. Chego mesmo a assustar-me quando leio aquelas linhas rápidas e nebulosas, temendo por aquilo que apenas pode ser descrito como uma tendência para abordar um plano de representações que estamos instintivamente condicionados a evitar a todo o custo. Em conversas, em discursos, nos nossos livros, em gestos; todos debandamos diante do mesmo objecto que interessa Lispector e lhe toma de assalto a construção das suas ideias. Não sabemos falar disso.
Se postularmos que existe – na simplicidade desarmante da vida que aguarda por ser vertida em texto – um plano abstracto e um plano concreto de representações (como se vê não tenho qualquer inteligência académica para inventar termos), e que ao escrever sobre uma personagem o primeiro corresponderá à dimensão dos seus mais inefáveis e básicos sentimentos e o segundo à manifestação consumada ou até mesmo física do primeiro, se postularmos isso, dizia, então estaremos aptos a compreender como se ordena e como triunfa – contra tudo o que seria de esperar – a arte de Clarice Lispector. Porque a escritora ataca o entre-plano, elegendo dissecar as suas personagems não por aquilo que fazem, ou tão pouco por aquilo que sentem, mas antes por aquilo que sentem pensar sobre o que sentem. É nesse ingrato momento – eclodindo os primeiros frémitos de um sentimento mas não tendo ainda o pensamento nascido – que descobrimos a lupa e a pena de Lispector auscultando a essência dos dissabores e amores humanos, esses turistas sentimentais e gregários que não conseguem impedir-se de pensar.
Repare-se que mesmo a abordagem estanque de qualquer um dos planos atrás descritos requer perícia considerável. No plano abstracto, lidamos com tonalidades e temperaturas, ondulações descarnadas e incompreensíveis de ódio e paixão. Ainda assim, é possível personalizar aquilo que é abstracto, instintivo, quase animalesco; basta criar uma avenida de comunicação assente num vértice mais ou menos antropomorfizado, e a honestidade que se aplique a esta tarefa será recompensada pelas reacções de aceitação e familiaridade que leitor evidenciará. Neste plano, as coisas não são complexas de se apreender, apenas resistem ao funil da palavra que lhes procura apegar uma etiqueta inequívoca.
Naquilo que é concreto? Por muito complicadas que as suas representações possam ser, temos sempre o melhor dos artifícios: observar a manifestação da realidade e descrevê-la de acordo com a nossa sensibilidade e talento. As inferências e desenvolvimentos podem e devem seguir-se: no limite, falamos todos da mesma coisa (embora alguns – como diria Pascal – compõem melhor as suas palavrinhas).
Ora, depois destas diatribes ocas de quem não tem mais nada para fazer (ou tendo-o, utiliza este local como elemento desculpabilizante da sua inércia relativamente àquilo que algumas pessoas apelidam jocosamente de “o mundo real e as suas obrigações“), depois de tudo isto vamos lá regressar a Clarice Lispector e os seus Laços de Família.
Neste livrinho encontram-se histórias em que os verdadeiros progressos narrativos são internos às camadas concretas dos factos, mas superiores às introspecções que se esperaria de personagens aluadas e abstractas. Quero com isto dizer que a sua prosa se dirige ao que está livre do abstracto e começa apenas muito vagamente a tomar forma enquanto movimento concreto. E é um enorme prazer assistir a Lispector quando trata de escrever sobre os modos de sentir que estão para além do pensamento. Que as suas cuidadas e arestosas palavras pratiquem a arte da universalidade pode ser atribuído ao facto de este plano intermédio ser na verdade a dimensão em que passamos mais tempo das nossas vidas conscientes. Mas também não se pode ignorar o mérito e a coragem evidenciada pela escritora quando decide desbravar caminho por estes trilhos psicológicos, os mesmos que estrebucham até ao seu sopro final perante a ideia ameaçadora de se verem acantonados em palavras destiláveis. Em suma, é esta a técnica que lhe permite discursar – de entre muitos exemplos – sobre as deambulações etílicas de uma jovem embriagada, os sentimentos de remorso pelo abandono de um animal de estimação, o desmoronar de uma concepção de vida a partir de uma visão externa, o constrangimento de uma festa de aniversário em honra de uma velha imortal, ou as muitas e contraditórias formas que assume o amor. Laços de Família não é um livro de pessoas ou um livro de histórias, mas um conjunto de estados humanos, unidos em torno de uma concepção social de família e sociedade – que alguns procuram franquear ao mesmo tempo que outros o visam absorver.
Como de costume, isto não diz nada. Aguardo agora ansiosamente o momento em que poderei ler alguns dos seus romances (já por cá andam, nas fileiras por cima deste mesmo monitor). Estou especialmente curioso por ver se a sua escrita surge menos domesticada e refreada perante os alongamentos permissivos deste outro formato (muito simplesmente porque tenho em boa fé, por conversas e opiniões recolhidas de terceiros mais sabedores, que a prosa portuguesa desta brasileira ucraniana pode surpreender pelo seu fio cortante de agressividade – uma característica expressiva a que ainda não estaremos tão habituados como, por exemplo, um americano no poente magistral de um século passado de prosadores).
[…] Referências: ‘O milagre de Clarice Lispector‘. […]