Atravessando a Cortina

helHistória da Europa do Leste – Da Segunda Guerra Mundial aos nossos dias, é o ambicioso título de um estudo assinado por Jean-François Soulet que agora nos chega através da Teorema. O professor da Universidade de Toulouse reúne apontamentos factuais numa tentativa de reconstruir o estranho e trágico fenómeno geopolítico que caracterizou a Europa do pós-guerra; a remoção e a perda para a União Soviética de uma fatia nobre da Europa Central e de praticamente todos os países do Leste Europeu. Para um observador do meu tempo – que com quatro anos de idade não poderia compreender o significado de um Muro esboroante – a viagem física a esses países revela-se incapaz de oferecer as melhores respostas, condenando-se o incauto turista cultural a descobrir, por debaixo da neve ou nas esquinas dos edifícios, vestígios dormentes e esfriantes daquilo que foram várias décadas sob o comunismo.

A importância heredotodiana deste género de publicações é tão mais premente quanto mais considerarmos o facto de ela não consubstanciar – por enquanto – uma arma contra o esquecimento humano de factos passados. Encontramo-nos ainda na fase da descoberta desses factos, tarefa árdua e dada a excessos interpretativos e nem sempre imparciais. Ajunte-se a isto que – para nós , os happy few – é tentador encarar os quarenta anos de comunismo que desabaram sobre estes países europeus como um período de tempo perdido, irrecuperável. Sempre tive do Bloco a ideia de uma vida interrompida; de uma existência colectiva atrasada e esticada por motivos torpes e cinzentos, ao passo que no Ocidente se vivia a euforia de um renuvescimento sem precedentes. E assim nos habituámos a sentir pena destas gentes do Bloco, tão isoladas e congeladas, que emergiram de quatro décadas de comunismo para encontrarem diante de um mundo pulsante e colorido que não esperara por eles e crescera desenfreadamente. Essa luz feriu os seus olhos? A nossa imagem comoveu e desesperou os libertos? Tenho ânsias de encontrar elementos que me confirmem ou desmintam tudo isto, que me forneçam um quadro tosco de como se processavam estas vidas e, para além da repressão e da vitimização, que sentiam elas que lhes tinha sido roubado.

Este exercício de psicologia colectiva é algo que eu não posso esperar de um estudo histórico: segurar Soulet contra este holofote cáustico de interpretações pessoais seria demasiado ingrato perante o bom trabalho que o francês desenvolve no livro. O aglomerado de factos é sólido e a pesquisa louvável, ainda que tropece ocasionalmente em conjecturas que não devem ao  rigor e não resolvem as perplexidades com que o leitor se aproxima da obra. As vissicitudes dos Balcãs, por exemplo – porque neste livro se abarca o Bloco por inteiro – permanecem uma mescla indecifrável e contraditória de factos, figuras e acções. O cômputo global é todavia positivo, com uma narrativa histórica enlaçada em três eras temáticas: a passagem ao comunismo (recensão geopolítica e estratégica dos anos finais da Segunda Guerra Mundial), o tempo do comunismo (a economia, política e vida social dos diferentes regimes do leste, com assinaláveis diferenças de experiência desde a subtil Finlândia até à esmagada Checoslováquia de Novotny), e a derrocada do comunismo (onde se dá conta dos eventos que fizeram trasbordar o insustentável cálice e levaram à queda do Bloco).

Na Actual de 21 de Março pode ler-se uma coluna crítica sobre este livro, da autoria de José Gabriel Viegas. Fala-se pouco sobre o conteúdo do livro e muito sobre as críticas que a escola tradicional – inevitável, o Hobbsbawn Name Drop(tm) – desferem a esta escola historiográfica de entendimento contemporâneo, de que o francês é um precursor eminente. Em todo o caso parece-me mais urgente assinalar que a tradução feita por um tal Manuel Ruas para esta edição da Teorema é absolutamente ofensiva. Intragável, mesmo. Obviando o facto de todos os nomes próprios terem conservado a sua transliteração francesa (o que nos impele a resistir contra o aburdo de Sánkt-Peterburg para São Petersburgo, Stálin para Stalin ou Estaline, Yalta para Ialta, Budapest para Budapeste, Iugoslávia para Jugoslávia, entre tantas, tantas outras grosserias!), ainda tem o leitor de ranger os dentes perante expressões tão patudas e balofas como “a acentuação da avançada soviética“, “movimento popular de grande amplidão” (pergunto-me o que é feito da palavra amplitude ou envergadura) ou até “o desejo de um novo dar de cartas era intenso“. E agora, culpa-se o cozinheiro ou o empregado? Culpo o empregado, e culpo-me também, pela imprevidência de ter comprado uma tradução que me impede de criticar adequadamente um aspecto secundário mas que não consente falhas desta amplidão –  perdão – calibre.

Mesmo não se concordando que é urgente descobrir o que se passou por detrás daquele estranhíssimo véu de aço que a expansão estalinista fez desabar sobre o ventre da Europa, poderemos sempre concordar que é pelo menos uma tarefa de que somos credores. Dos outros só podemos esperar aquilo que não tiveram a oportunidade de fazer durante estas longas décadas de seclusão política. Para todos os apaixonados de história contemporânea, para todos os curiosos das verdadeiras faces do comunismo que a URSS praticou, este é um livro que se recomenda com apenas algumas reservas de estilo e de abordagem acima mencionadas.

 

One thought on “Atravessando a Cortina

  1. […] Referências: ‘ Atravessando a Cortina’. […]

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