Ciúme

A explicação de um dia cabe em palavras soltas e disconexas que recolhi numa livraria ao cair da noite. Através do véu cansado do meu olhar conseguiram penetrar algumas frases que não deflagraram imediatamente, tão cansado me encontrava. A minha cabeça latejava com os zumbidos quentes de uma dor vaga; percebo agora que lia trechos soltos da Sonata Kreutzer.

A explicação de um homem cabe no despoletar da sua consciência, quando um punhado de doces palavras colocam em andamento o assustador processo da introspecção. Sementes da discórdia implantadas num ventre demasiado inseguro, demasiado incerto, perenemente indefinido.

Quando germinam, temos a tempestade: percebo que é também o ciúme que me domina, é também essa violenta ferocidade interior que me gera o ódio e o escárnio pelos arredores daquela que amo. O livro há de me dizer pouco – quando e se finalmente o ler; lida com pessoas que não sou eu, e com veleidades que jamais serão as minhas.

Mas ao menos tenho a minha explicação. Vi-me explicado por uma pena invisível que escrevia sentenças na minha mente. Este foi o meu dia, como tem sido a minha semana e como tem sido o meu amor. É tantas vezes daqui que surge a minha energia que eu não concebo existir ou doer de outro modo. É a partir daqui que eu construo o altruísmo, aprendo a amar sozinho, a pensar nas coisas e a colocar senão as rédeas mais necessárias nos meus sentimentos.

É daqui, em suma, que nasce a antinomia que me deixa feliz.

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