Imprensa de Março – I

Deixo aqui a recensão dos principais conteúdos do Magazine Littéraire de Março de 2009, edição que surge em capa com o destaque de dois grandes dossiers: um sobre André Gide (que seria motivo bastante para adquirir a revista), e outro sobre a definição e legado da literatura mexicana. Os temas podem parecer disconexos, para não dizer dissonantes, mas os LMLmotivos circunstanciais justificam a eclética selecção de cahiers: por um lado, celebra-se o cententário da Nouvelle Revue Française, autêntico báculo literário que Gide ajudou a fundar. Por outro, decorreu a 17 de Março o Salon du Livre em Paris, com um certo número de escritores mexicanos convidados a participar. Antes de me debruçar sobre os dois dossiers principais, deixo uma lista desenvolvida de outros artigos que me aguçaram o interesse.

  • Gros-plan sobre Magda Szaló, escritora húngara – ao que parece de considerado renome – que me era desconhecida. Apesar de o artigo não conseguir presentear o leitor ignorante com uma panorâmica essencial do conteúdo da sua obra, oferece todavia algumas linhas seguras de estilo que me interessaram. Numa semana em que continuei a adquirir obras magyares (coroadas por uma interessante Antologia da Poesia Húngara), este nome é certamente de investigar.
  • Como também sucede na edição deste mês da Lire, há um artigo sobre Klaus Mann, por ocasião da saída de uma colecção de ensaios intitulada Contre la Barbarie (1925 a 1948). Como se trata do neto de Heinrich Mann e filho de Thomas Mann, a primeira parte do artigo não deixa de evocar discretamente a opressão que tão distinta linhagem pode exercer (a despeito das muitas provas de Klaus Mann, desde A travers le vaste monde ou Le tournant – para utilizar os títulos franceses). Imagine-se só, ser um um escritor filho de Thomas Mann! No caso em apreço, o terceiro Mann arrisca-se sobretudo a ficar para a posteridade como um pensador político lúcido, dos poucos admiráveis que souberam renegar o social-nacionalismo sem resvalar para o estalinismo. Esta colecção de teses – nem todas inéditas – pode muito bem ser uma duradoira demonstração de uma inteligente voz desagregada, que soube manter a sua integridade num momento histórico excepcionalmente conturbado.
  • O pensamento de Michel Foucault ardeu intensamente até ao fim. Do ano da sua morte chega-nos agora a edição da derradeira aula no Collège de France: Le Courage de la verité – Le Gouvernement de soi et des autres II – Cours au Collège de France, 1984. A aliturgia, a forma pela qual a vontade se manifesta, ocupa as dissertações desta publicação que em muito breve terei de adqurir. É fundamental, defende Foucault, compreender pelo menos a importância da conversa-franca e renunciar ao modelo tripartido de divulgação do conhecimento. Se a parèsia encontrava expoente icónoco no discurso unívoco de universal de Sócrates, é no mínimo preemente a necessidade de identificarmos as modalidades estanques que veiculam o conhecimento actual. Abre-se o grande constraste de registos, desde o discurso científico das formas, o discurso político das estruturas ou o discurso moral prescritivo de imperativos de conduta (mas já não mais categóricos, curiosamente). Decididamente a ler.
  • Uma pequena coluna crítica deixa-me com vontade de ler Nullipare, um pequeno romance de Jane Sautière, em que uma prosa contemporânea versa sobre os assuntos de uma actualidade obcecada com o imperativo da descendência, ao mesmo tempo que o espaço de liberdade individual e feminino é crescentemente exacerbado. Sem mais elementos que esta pequena nota crítica, interrogo-me se este é um livro capaz de explorar, ainda que ao de leve, a convergência o estigma social de uma existência sem filhos e o desgosto – não inteiramente lógico, porquanto biológico – de enfrentar os anos vindouros sem a aparência de uma vida que se prolonga para além da carne.
  • Nova edição Pléiade das Obras Completas de Arthur Rimbaud, porque nunca é demais revisitar a chama efémera mas intemporal que animou a curta vida deste vulto literário.
  • Uma perturbadora investigação sobre a subsistência financeira dos muitos escritores franceses. Sobre este ponto, dedicarei algumas linhas autónomas quando tiver algum tempo.

Bom, regressando agora aos destaques do mês, vejamos então o que se diz dos mexicanos. Não estando no meu ambiente natural (caso ainda não tenham reparado, sou mais francófono do que devoto seguidor da literatura latino-americana) acabei percorrendo esta secção com uma certa frieza. Sinto uma certa vergonha por não me envergonhar da ignorância dos grandes nomes de que o dossier dá conta. De todo o modo, encontra-se um conjunto de artigos merecedores de atenção, abordando traçando o percurso literário do México desde o desembarque de Cortez, através da Revolução Mexicana (belo artigo de Fabrizio Mejía Madrid) até ao final do século XX e o nascimento de uma nova consciência social na literatura e nos estilos poéticos. Para quem esteja familiarizado com Octavio Paz, Carlos Fuentes, Paco Ignacio Taibo II, Álvaro Uribe, Sergio Pitol ou Fabion Morábito, esta é uma leitura recomendada.

Adiante. Ou zurück,  pois do que verdadeiramente aqui se trata é de André Gide, esse mais moderno de todos os clássicos (as vezes os subtítulos das revistas são tão doces que sabem bem repeti-los com um ar grave). Da sua influência dizia-se que era demasiado grande para poder ser confortavelmente partilhada numa França embevecida com Proust. E porque não? A fundação da Nouvelle Revue Française em 1908 iniciou uma época de ouro cujos ecos ainda nos chegam através da casa Gallimard.

Claro que apelidar de moderno um escritor que viveu e trabalhou há mais de um século requer alguma explicação. No caso de Gide, não há nenhuma que se possa oferecer categoricamente. Ele é apenas uma daquelas figuras que escreve tanto sobre o seu tempo como sobre o nosso. Fez algo que poucos outros conseguiram: viveu o que escrevia, viveu como escrevia, e escrevia o que vivia. Os percursos deste homem são indissociáveis das suas palavras. Viajante do  século XX, em 1936 elegiava Gorki na Praça Vermelha, numa das incursões ao Bloco do Leste; correspondeu-se com Sartre, ombreou com Valéry e Gallimard. Foi admirado e admirador de Joyce.

Educado nos quadros classicistas, Gide depressa conheceu a sensibilidade do simbolismo. Contudo, seria na criação de uma linguagem própria em que o francês de destacaria, nesse registo que hoje nos fere de assombro e que nunca desistiu de cultivar as antinomias naturais da existência humana. O Magazin Littéraire não se demora na análise das suas obras, preferindo acompanhar elementos biográficos e sociais da sua vida. É pena, mas material de leitura sobre André Gide não é propriamente um bem precioso e rarefeito. No final, temos apenas que seguir os seus próprios conselhos, na mesma voz em que exorta Nathaniël a deitar fora o seu livro, a se interessar pela maneira de ver e não pelo objecto em revista. Emancipa-te. Deixa-me. Mas antes de o deitares fora, lê-o.

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