A feira, o livro, o rabi e o monstro

Encontra-se a decorrer a  Feira do Livro Manuseado da Assírio & Alvim.

Acantonada ao fundo da epónima livraria encontra-se uma interessante variedade de livros em desconto amontoados sobre velhas bancadas, alguns dos quais não aparentam sequer ter sido abertos uma única vez. Pela minha parte, prescindi do meu almoço para os visitar, e com onze euros troquei uma refeição gordurosa de média-jornada laboral por um Diário Secreto (Aleksandr Púchkin, talvez talvez), O Conde Lucanor (Dom Juan Manuel) e O Cardo e a Rosa – Poesia do Barroco Alemão (antologia bilingue promovida por João Barrento).

FeiraO que me traz a estas linhas é todavia o admirável cartaz oficial que alguém compôs para a pequena feira (e que eu aqui inseriria em primeira mão – com pompa e alinhamento – não fosse o semblante sério do sábio semítico destoar chocantemente com o esquema de cores mortiças e esverdeadas com que o WordPress.com brindou o único template tolerável no seu acervo de escolhas a utilizadores de tipo sanguessuga que não pagam um centavo pelos seus préstimos electrónicos).

[Nota do editor: este parágrafo foi obviamente concebido antes da mudança de visual do blog, mas o esforço estilístico que parece ter sido aplicado neste queixume tão patético impede-nos, guardiões da espontaneidade – de agora o retirar]

Passei um bom bocado a pensar onde já teria visto esta imagem, e embora não duvide que a resposta me surgirá nos tempos vindouros com a força e patetice de uma revelação inconsequente, entretanto já tenho fixa a reminiscência de um outro sábio e de um outro livro. O feiticeiro é o Maharal Loew ben Bezazel do Gueto de Praga; o livro, um tomo arcano de caracteres hebraicos em que o mago se inspira para a invocação do barrento Golem. Porquanto estas imagens vivam em cantos literais da minha mente desde o momento em que Gustav Meyrink as botou em papel com a finalidade de uma tradição enfim codificada, todas estas impressões são emprestadas de Der Golem: wie er in die Welt kam, obra de intersecção fantástico-expressionista que Paul Wegener realizou no profético ano de 1920.

Loew e o GolemA lenda do Golem exerce um fascínio particular, fruto do cruzamento feliz de certos elementos que jamais se pensaria – depois de lidos ou visionados – poderem existir fora dessa hábil aglutinação. Um monstro de argila, um rabi místico, um gueto judeu, a cidade de Praga. Não é difícil, ao deparar-se o visitante do século XXI com as ornamentações murais da sepultura do rabi Loew no Cemitério Judeu de Praga, pensar fantasiosamente que faria todo o sentido se os despojos do Golem – tal como reza a lenda – ainda se encontrassem numa antecâmara da Velha Nova Sinagoga ou num sótão arcano, adormecidos e expectantes até que uma cabalística palavra voltasse a animar os seus membros. Apesar de existirem duas grandes correntes (a polaco-judaica e a germânico-cristã) a narrativa deste mito segue invariavelmente as seguintes linhas. Numa Praga do século XVI, a comunidade judia encontra-se sob o jugo e a repressão da nobreza. Encarando a expulsão e o extermínio, extinção, o rabi Loew – O Maharal de Praga –  mergulha nas ciências arcanas e proibidas e alcança a infusão de vida num colosso de argila, a que é dado o nome de “forma sem vida”, ou Golem. Cumprindo a missão de defender o gueto, o colosso – mero recipiente sem alma –  principia a vaguear pela ruas e comete inconscientes atrocidades. O Maharal é chamado a intervir, e com uma incantação desactiva o monstro.

A única versão cinematográfica em boas condições que nos resta dos três filmes que Wegener dedicou ao assunto é a de 1920, que eu tive a sorte de visionar numa sessão da Cinemateca há alguns meses. Há que anunciá-lo à partida: o filme suporta interpretações anti-semíticas. Não obstante o facto de em 1920 nos encontrarmos nos primórdios da arte cinematográfica (o que significa lidar com uma época de inspiração explosiva, inconstante e irreflectida, capaz dos maiores surtos de génio e das mais incompreensíveis manifestações de opinião humana), os elementos que nos surjam mais estranhos num filme alemão do pós-guerra não devem ser alvo de uma interpretação ligeira e apressada.

Nem o filme se presta a simplificações. Nesta película, é a nobreza cristã a usurária, são as classes equestres que oprimimem e mesmo subornam os judeus. Com um par de cenas, contraria-se a visão preconceituosa sobre as comunidades judias que a Idade Média abrigara durante séculos. Numa sequência emblemática, o Maharal é chamado a apresentar-se com a sua criação diante da corte. Quando o convidam a realizar uma cerimónia religiosa que lhes elucidasse sobre a beleza e profundidade do seu culto, alguns dos convivas escarnecem dos gestos ritualísticos do venerando rabi. A fúria divina é terrível; as paredes tremem, o chão fende-se, e a corte só não morre esmagada pelo tecto porque Loew ordena que o Golem os salve a todos.

Mas, por outro lado, o filme coloca grande enfâse na criação descontrolada do rabi, consistente com a visão do Judaísmo enquanto culto blasfemo, nocivo aos estritos quadros de tolerância cristã. O gueto é filmado como tendo enormes muralhas;  surge uma enorme tensão quando Florian – um cavaleiro loiro – começa a realizar algumas incursões ao interior da cidadela, seduzindo uma bela jovem pela qual o assistente do rabi se encontrava apaixonado. O impetuoso aprendiz de feiticeiro não faz mais nada, e atiça o poderosíssimo Golem contra o resplandecente nobre loiro. Como se pode imaginar, segue-se a chacina completa: o gueto acaba em chamas, e o cavaleiro é despedaçado pelo colosso. A amada assiste a tudo mas perdoa-lhe, e a comunidade judia permanece segregada, diferente, inimiga.

golem3Isto previne-nos contra a impossibilidade de realizar uma interpretação do filme que definitivamente lhe reconheça um pendor anti-semítico. Mas já se torna mais fácil compreender qual o significado que esta narrativa podia ter numa Alemanha que acabava de perder a guerra e ceder territórios importantes sob o Tratado de Versailles. O paralelismo é quase doloroso: o filme abre com uma comunidade ameaçada pelo exterior. Um salvador levanta o Golem, defende a sociedade, e ganha o respeito dos opressores. Contudo, o intrumento é degradado quando chegam os tempos de paz. Fazem do Golem um servente e um capataz, um mordomo e um moço de recados, impõem-se-lhe condições terríveis e, finalmente, criminosas. O Golem riposta, inicia-se a guerra, a loucura e o desespero. O ódio e a força nada podem contra ele. Morre, enfim, quando a inocência e o amor de uma criança ariana lhe arranca o talismã do peito e desfaz o feitiço do rabi.

Termino com uma derradeira observação. Algumas narrações sobre o Golem mostram o rabi a inscrever, na testa argilosa do colosso a palavra Emet (Verdade) para que ele ganhasse vida. Se quisesse aniquilar o monstro, o rabi apagaria a primeira letra do nome, formando a palavra Met (Morto). Loew tinha domínio total e exclusivo. Se nessas versões os segredos do funcionamento do Golem se encerravam na insondável mente do rabi – por cuja própria mão os símbolos eram tempestivamente desenhados – na visão de Wegener basta um pergaminho judiciosamente colocado no interior de um talismã traçado sobre o peito do lamacento monstro. Tal como a lição de que até o supremo conhecimento cabalístico dos estudiosos rabis pode ser facilmente transmitido  – e facilmente corrompido – por meio de uma tradição física de documentos, também a Alemanha encarava em 1920 a mudança, a incerteza, e o ominoso pressentimento – sufocantemente atenuado – de que não bastaria a continuidade de costumes ou a tradição do conhecimento para assegurar a integridade moral de uma comunidade que parecia mais separada da Europa que nunca.

Com as etiquetas , ,

2 thoughts on “A feira, o livro, o rabi e o monstro

  1. Fausto, de Murnau.🙂

  2. reharl diz:

    Mas é claro! Se eu fosse amigo de algum cinéfilo fanático estaria a temer pela minha vida neste momento, com a tremeluzente esperança de redenção que foi ao menos ter acertado no período expressionista da coisa.

    Obrigado pela visita!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: