Almoçar em Pripyat

Dúbia honra assiste ao lisboeta que se aventure pelas ruínas do Parque Mayer.  No coração da cidade estende-se a nossa própria Zona de Alienação, que em obediência aos nossos caracteres sociais foi votada ao abandono pelo desleixo e pela incúria em vez de pela ambição ou a radioactividade.

Nenhuma recordação me une a este local, nenhuma memória me compele a assombrar as suas calçadas rebentadas. Até há duas semanas atrás, nunca lá tinha entrado. Mas ocorreu que fosse convidado para um almoço num dos poucos restaurantes de bairro que ainda estrebucha por exercer a sua arte declinante no seio deste destroço de cimento. A viagem obriga-me a passar por debaixo de um arco quase em ruínas, ao lado de habitações cujos tectos desabaram secamente sobre o interior das paredes. Gatinhos selvagens correm pelos cantos e aparam as garras nas trepadeiras que reclamam as muralhas do recinto.

Os teatros, esses, são como velhas fábricas soviéticas deixadas ao relento numa noite demasiado fria durante longos anos. As janelas estão estilhaçadas, e grossos pombos escuros como corvos  aguardam os intrusos, alisando as suas penas ao sol. O estuque é mais paciente do que a tinta, cuja pintura exterior vai descascando com languidez.

O restaurante tem janelas, mesas confortáveis, boa luz e boa comida; uma surpresa. Não tem vista, apenas a paisagem de um recinto que foi arrastado através do tempo, vítima de algo que ninguém sabe precisar. Imagino o viajante incógnito de Shelley a aventurar-se pelo parque de cimento e viaturas, as únicas ocupantes do recinto. Em vez de um mapa, segura um guia de viagens com uma imagem da Torre de Belém na capa, e em vez de um cantil tem consigo um contador Geiger. Em vez do deserto, o cimento.

Enquanto os meus amigos conversam alegremente à saída do estabelecimento, a refastelada e improvável refeição é insuficiente para me afastar daquela estranha contemplação em meu redor. Penso em silêncio.

Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

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