Um exercício

Para apreender a essência da rima aliterativa, proponho um único e simples passo: ler o seguinte trecho em voz alta. A pronúncia ou o conhecimento da língua é largamente indiferente, mas a entoação deve ser firme e respeitar a cæsura. Os Thorn (þ) e os Eth (ð) devem ser lidos como se do som th se tratassem. As vogais acentuadas pelo macron são alongadas (ā, por exemplo).

Hwæt wē Gār-Dena    in geārdagum,
þēod-cyninga    þrym gefrūnon,
hu ðā æþelingas    ellen fremedon
.

Tais os três primeiros versos de Beowulf, celebérrimos noutros países e em certos círculos. Não sendo de fácil tradução ou transposição para línguas latinas (como nem sequer o é para a moderna língua inglesa!) deixo contudo aqui uma ideia aproximada do seu significado (sem aliteração, que se encontra bem para além das minhas capacidades):

Escutai! Dos dinamarqueses de tempos idos
e seus reis ouvimos coragem e grandeza,
bravura dos feitos desses príncipes.

Talvez eu esteja na minoria. Mas o formalismo métrico sempre me cativou mais quando surge em moldes aliterativos. Duvido que a poesia exista fora da oralidade, e nesse caso o verso aliterativo da velha tradição nórdica e inglesa é possivelmente a forma mais natural, rítmica e fascinante de firmar um lirismo tão simples de se declamar quanto comovente de se ouvir. –Dagum, –frūnon e –medon podem ser os sons que aqui pontuam os versos, mas a cadência da estrofe reside quase inteiramente na deliciosa maneira como a as quatro últimas  sílabas enrolam, condensam e elevam os sons das cinco primeiras. Esta métrica é feita para a aliteração: quatro tempos que, quase por milagre, fazem frente a cinco sílabas, lhes encapsulam toda a essência e assim permitem o casamento de consonantes de outro modo solitárias e réprobas.

Para incursões deste género, há uma óptima tradução que Seamus Heaney publicou em 1999 e que, em virtude da sua edição bilingue, presta-se adequadamente a este género de experiências e incursões. Michael Alexander (que urge os seus leitores a lerem o poema em voz alta, nem que seja baixinho) tem outra admirável tradução, por vezes mais classicista em termos e menos rígida em estrutura. Liuzza assina uma tradução muito distinguida e Burton Raffel é o autor da mítica tradução de 1963 que libertou o poema épico do seu tratamento académico e o soltou para o resto do mundo. Nenhum destes autores, nem sequer uma combinação impossível destes autores, conseguem igualar o milagre aliterativo do original. Mas oferecem-nos – magistralmente – o significado por detrás das palavras que compõem essa maravilha.

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