Uma vida apenas

Kafkas Prag: o carinhoso retrato de uma cidade através dos passos errantes de uma das suas muitas criancinhas. Neste livro, Klaus Wagenbach não faz intenções de explorar o conteúdo de uma figura humana que veio a influenciar, de uma forma ou outra, uma assombrosa parte da literatura contemporânea. Mais do que um puro guia de viagens ou de uma gélida biografia, este livro desempenha ambos os papéis com uma perícia e competência superiores a muitas publicações que se dedicam exclusivamente a um ou a outro destes temas.

Após a sua leitura, reparo que não é improvável que uma pessoa se sinta estranhamente próxima de toda esta gente cujas apressadas e por vezes abruptas vidas acabou de ler. Isto porque o autor realiza admiravelmente a tarefa de desfiar as vidas dissonantes de alemães, checos e judeus, de funcionários públicos, comerciantes e operários, de doutores em direito e escritores em tertúlia, e daqui resulta uma sensação de familiaridade calorosa. Imprecisa e irreal, claro, mas sempre honesta na sua empatia humana.

Ficamos a saber que peças de teatro se encontravam em cena, ou que música se admirava durante esses anos. E encontramos a dolorosa surpresa de encontrar belas mentes literárias debatendo nomes e temas hoje tão esquecidos que só um curioso estudioso – um raivoso estudioso – saberia identificar de antemão. Nomes, pessoas, ideias superiores a todos nós e que o tempo cobriu de areia com o menor dos esforços.

No final, perdura a convicção de que uma cidade, uma fascinante e irredutível velha cidade europeia, não se conhece senão a partir das gentis almas que a habitam. Kafka, neste livro, não é Kafka o escritor, ou Kafka o génio, ou Kafka o Kafkiano, mas apenas um habitante mais, um ser comum cujas sensibilidades especiais entreabrem uma janela privilegiada à observação da urbe. Tal como tantas outras pessoas, Kafka mantém diários e troca correspondência com amigos. Queixa-se do barulho dos vizinhos, ou recorda brigas entre checos e alemães, crianças e adultos. Fala sobre o burburinho do mercado na Praça Velha e refere a escola de natação do Vitava. Lamuria-se quanto às horas de trabalho, fala dos seus exerícios de ginástica, e confessa que adora passear por algumas zonas e jardins da cidade.

Há algo de muito comovente em ler e sentir, em termos tão claros, as sombras e o ressoar dos passos de figuras de ontem e de sempre, e saber que sobre as lajes duras e entre os muros de uma cidade também nós podemos viver em breve continuidade. As suas vidas foram tão fugazes como serão as nossas, e até a cidade, senhora de uma imutabilidade relativa, um dia desaparecerá. Na confluência desta erosão temporal, no cerne destas avassaladoras forças da natureza humana, é ainda possível atrasar o esquecimento e retardar o vazio da existência, para no seio da mudança encontrar uma vida, um fôlego, uma crepitante centelha de génio e de luz.

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One thought on “Uma vida apenas

  1. […] Referências: ‘Uma vida apenas‘.  […]

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