Diz-me como reages, e direi quem tu és

Encontro-me a ler Lord of the Flies, de William Golding, um livro que confesso nunca ter percorrido antes (mas cuja importância e inclusão nos incontornáveis programas de leitura dos ESOL de Cambridge não me passara despercebida). Como os meus deveres profissionais tendem a fragmentar os meus períodos de leitura, dou por mim a atravessar alturas do dia com uma frase presa na minha mente ou uma descrição constantemente diante do meu olhar (e Golding é um soberbo escritor). Após esta manhã, comecei a pensar neste livro e de como o poderia integrar numa possível sistematização de obras semelhantes. Acho que tudo isto deriva do facto de Lord of the Flies ser considerado como uma obra incontornável dentro do género. Note-se que não discordo em absoluto, pelo menos até agora. Simplesmente me interrogo que género é esse.

Como ponto de partida, pode-se dizer que analisar implica tomar distância. Quando Golding se propõe a demolir criticamente alguns aspectos da civilização moderna, o palco ideal para estas vozes é o de uma ilha deserta em que algumas dezenas de crianças acabam de se despenhar. Munidos das noções mais básicas da civilização europeia, os rapazinhos pensam em regras, grupos, líderes e funções, partindo à descoberta da ilha e imprimindo aos seus selvagens terrenos as estruturas sociais do seu subconsciente. Mais não digo, nem poderei com autoridade dizer, tendo em conta que apenas agora me aproximo da porção do livro em que o desenlace ocorre e a integridade dos padrões civilizacionais começa a ser contestada.

Mas é um facto que os últimos séculos foram especialmente férteis em obras deste cariz, de tal modo que não sei se não se poderá falar no nascimento de uma sensibilidade própria relativamente à maneira como se encara a noção de sociedade e civilização à medida que a raça humana prossegue a sua conquista do grande desconhecido. Uma sensibilidade que supera a tendência de criticar as partes para segurar o todo à luz examinadora de um diagnóstico humano. A civilização acaba por ser personificada, e a ela nos podemos então dirigir com pergunta do género ‘Quais os teus pensamentos?’ ‘Que desejas, para ti, e quais as tuas crueldades e intolerâncias?’ ‘Conseguirás sobreviver, e conseguirás manter-te coerente?’

Desta perspectiva consolidada brotaram obras providas de um novo fôlego. Nas suas páginas, já não se encontra em questão a análise de pontos isolados de uma sociedade, a que forçosamente têm de presidir esta e aquela explicação política, religiosa, ou moral. Obras tão diferentes como Robinson Crusoe, de Defoe, ou Stranger in a Strange Land, the Heinlein, encontram filiação comum nesta abordagem profundamente singularmente humana de um organismo de partes complexas.

Existem várias maneiras de construir uma base temática de análise destes temas. Sem querer avançar critérios demasiado rigorosos ou sequer académicos (até porque já comecei a perceber que por vezes me levo demasiado a sério) destacaria três ferramentas frequentemente utilizadas.

(a) A transplantação de um substrato humano de um círculo civilizacional para um círculo selvagem e desconhecido, observando o seu desenvolvimento e retirando as devidas inferências das suas acções;

(b) A expansão de um círculo civilizacional para áreas que previamente não se contavam entre os seus domínios, observando como o substrato humano acompanha essa expansão (a qual pode amplificar, atenuar, ou alterar os seus comportamentos);

(c) A colocação de um substrato humano, normalmente reduzido, em situações periféricas do círculo civilizacional, estudando os seus pontos de conflito e rotura com os demais companheiros que se encontram na mesma situação.

Assim, em (a), encontramos pessoas que, pertencendo previamente a uma civilização, são atiradas para uma realidade em que os mecanismos de apoio civilizacional desaparecem bruscamente. A par da sua sobrevivência coloca-se a questão da essencialidade dos seus mores: que lhes interessa manter, neste novo mundo, onde uma tábua rasa suplica a sua intervenção? Como se organizam eles e, talvez mais importante, se analisam os métodos de organização (averiguando as razões por detrás do seu funcionamento e concluindo pelos mais indicados) ou se simplesmente os colocam em prática sem a menor arguição intelectual. Lord of the Flies é um bom exemplo neste campo, assim como o será Robinson Crusoe e Tunnel in the Sky, também de Heinlein (que pode ser visto como um contraponto à obra de Golding).

Em (b), a civilização mantém-se, e portanto as personagens não sofrem inicialmente com o choque da sua eliminação repentina. Todavia, encontramos cenários em que estas formas de sociedade se começam a espraiar para terras ou áreas sociais anteriormente vedadas ao seu poder. Aqui, estuda-se como o ser humano, talvez de uma forma mais subtil, reage às novas realidades que muitas vezes inimizam o seu modo de vida, dela reclamando mudanças parciais que ameaçam as fundações da sua moralidade e criam uma teia infindável de contradições. É esta a plataforma ideal para analisar o modo como o indivíduo reage a estímulos novos, e que aspectos periféricos da sociedade escolhe alterar (sendo praticamente consensual que o núcleo do seu ser enquanto homem civilizado se manterá intocado). Nesta linha, encontramos o magnífico Heart of Darkness, mas também 1984 (que, entre outros, retrata o conflito humano de uma sociedade que se começou a imiscuir em áreas avessas ao intervencionismo programático, como a língua, a vida íntima, ou a gestão do conhecimento histórico.) Robinson Crusoe, enquanto personagem, pode ser encontrado a agir neste plano em algumas ocasiões (mas num plano subtil; veja-se como ele continua a aceitar a escravidão consensual mesmo depois de comungar com os povos habitualmente agrilhoados, e note-se como apenas alguns dos seus hábitos se alteram devido a estímulos culturais exteriores).

Em (c), encontramos pessoas que, apesar de se encontrarem longe da sua civilização, comportam-se de acordo com os seus cânones e regras, normalmente porque a separação das suas esferas normais é temporária e sentem a necessidade de manter os mesmos padrões de comportamento. No entanto, as condições extremas a que estão sujeitas exercem influências nem sempre dissimuláveis, e aí reside a plataforma de análise das acções humanas: como é que uma pessoa, atormentada por pressões e condicionalismos muitas vezes imprescindíveis à sua sobrevivência, reage perante outras pessoas que procuram fazer o mesmo, mas gravitam em torno de desejos diferentes? No fundo, é aquilo que se passaria em (a) se os participantes obstinadamente quisessem manter viva a sociedade. Essa grande bíblia da natureza humana que é Moby Dick, entre inúmeros outros aspectos, apresenta precisamente este conflito, onde a obsessão e a loucura de um indivíduo se digladiam com os dissonantes desejos do resto da tripulação, nos confins do mundo.

A linha unificadora de todos estes artifícios consiste na distensão, mais ou menos pronunciada, do elemento solitário com o elemento gregário. No primeiro, a civilização desaparece, no segundo adapta-se, e no terceiro mantém-se, pelo menos enquanto representação mental. Alguns autores, como Huxley, combinam todos estes elementos nas suas obras (num exemplo, aponte-se como o seu Savage encara o admirável mundo novo na perspectiva de (a), e como o resto da população o tende a encarar na perspectiva de (b)).

O mínimo em que se pode concluir é na inegável eficácia de todas estas ferramentas. Posso idealizar um livro do género que realize as mesmas falçanhas analíticas num mundo em que civilização e o elemento human se mantenham numa relação de funcionamento normal, num mundo em que não existem distensões ou quebras ou calamidades que diluam a força dos costumes e depurem a instintiva natureza humana, para deleite científico do leitor e moralista. Onde um homem ergue a sua voz acima dos outros, seus completos iguais em forma, substância e circunstância. É concebível, certamente, que um tal livro possa existir (como de facto existe), mas poderá nesse caso estar votado ao relativismo sufocante que a sua própria perspectiva impõe.

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