Observação do interlúdio

Estou a meio do almoço e surge uma ameaça ao meu despreocupado intervalo. A sombra encontra-se lançada: na mesa ao lado, um sujeito desagradável repasta-se na companhia de uma senhora que não lhe aparenta intimidade. São colegas de trabalho e, pelos seus gestos e porte, ressalta que ele será um ligeiro superior na hierarquia da empresa ou da repartição. Fala, por isso, com uma desenvoltura emprestada pela sua posição, visando impressionar e conquistar.

Dentes arreganhados, com uma voz arrastada na sua rouquidão inconvenientemente alta. Um nó de gravata tão desleixado como solto, espalmado, sem sentido. Não se percebe se quis enveredar pelos abatatados caminhos de um Windsor; é inútil esta linha de observação. A infelicidade convola-se em curiosidade, e afinal descubro algo com que me entreter enquanto saboreio o pastoso bolo achocolatado e o vital café cheio.

Chega o empregado, em busca de uma sobremesa. Que desejam, senhores? Solicita-se uma enumeração das doçarias. O fulano escolhe uma e pergunta à sua companheira o que deseja. Ela dirige a palavra ao empregado: não desejo nada, obrigada. O fulano não resiste, vira-se também para o empregado e profere bruscamente ‘Ela não quer nada’. Que será maior, naquela mesa, o seu ego barrigudo ou a indelicadeza com que ignora a existência da sua companheira para o exterior?

Chega o momento do café. Pedimos? ‘Não é obrigatório beber café’, diz, quando ela se mostra reticente. Que gracinha, que parvoíce.

Chega a conta. O fulano pretende aproximar-se de um vago conceito de cavalheirismo de que ouviu falar algures. Diz que fica bem. Resgata a conta com um gesto tão teatral como grosseiro. Pago eu, pois sim. E logo, destruindo a sua própria amabilidade, brinca às escondidas com papel amarfanhado. ‘Queres saber quanto foi? Não digo’. Tira uma nota de 50 para pagar uma refeição dupla de 20. Aproveito a deixa para saldar a minha própria dívida e cumprimentar os amigáveis patronos do estabelecimento. Boa tarde, cumprimentos, e até à próxima.

Travessia do Largo do Rato, labiríntica em passadeiras e semáforos. Sob o sinal vermelho, uma velhinha impaciente começa a atravessar a estrada, para logo recuar apressadamente diante da visão de um bólide cortando as manchas de água no asfalto. Olho para ela e não resisto a sorrir. ‘É importante saber esperar’, digo.

Recebo um sorriso de volta, muito aberto e efusivo. E não é que é bem verdade. Verifico, com um certo alívio, que minha observação – afinal arrogante (ensinando a uma decana os méritos da impassibilidade perante a passagem do tempo!) – não foi recebida com desprazer. ‘Esperei duas vezes nove meses pelos meus filhos,’ confessa. E logo acrescenta, numa explosão de alegria:

‘E são a minha riqueza! Um bom ano para si!’.

Um bom ano em Fevereiro! Magnífico! Portador de um sorriso fechado. pondero sobre isto enquanto trepo a São Filipe Nery ou Neri (“na verdade, ninguém sabe”). Entro na Trama e saio pouco depois, enriquecido com Hölderlin e Lispector. Um par de livros embrulhado num pacote de papel, o rico filigrana da livraria a servir de orgulhoso farol no meu regresso ao mundo empresarial. Desço então o Salitre, e penso que gosto de livros embrulhados em papel, em vez de penduricados em sacos plastificados. Como o invólucro quentinho feito de papel crepitante que aconchega um generoso pão acabado de fornear. Alimentos para a alma, je m’attends à vous, nourritures!

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One thought on “Observação do interlúdio

  1. Catarina diz:

    Que bom ler isto.*

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