E não quer a chave da casa onde está o dinheiro?

As altas partes contratantes fitavam-se olhos nos olhos, abraçavam-se, davam-se palmadinhas nas costas e riam-se cerimoniosamente.
— Portanto – disse Ostap —, dez rublos por tudo!
— Meu bem! — admirou-se o electricista. — O senhor exaspera-me. Sou um homem amargurado pela água de Narzan.
— Quanto quer, então?
— Ofereça meia centena. Porque são bens públicos, meu bem. Sou um homem amargurado.
— Está bem, vinte! De acordo? Vejo pelos seus olhos que está de acordo.
— O acordo é um produto na não-resistência total das partes.
— Discursa lindamente, o cabrão — sussurrou Ostap ao ouvido de Ippolit Matvéevitch —, aprenda.
— Quando traz as cadeiras?

[Porque o desenlace é, nesta instância, grande fonte de satisfação, previno os interessados na leitura de As Doze Cadeiras (mas que ainda não o tenham feito), que o presente texto contém referências ao capítulo final da obra.]

Numa magnífica demonstração da diversidade da cultura literária russa, o processo satírico contido nas Doze Cadeiras nunca se desenrola sobre os auspícios cruéis da crítica fria e laboratorial. Iliá Ilf e Evguéni Petrov conseguem aqui, com uma elegância a todos os níveis invejável, uma calorosa análise a uma sociedade esperançosamente colectivista. As suas penas correm os substratos daquilo que outrora tinham sido classes sociais, de autoridades resignadamente burocratas, de costumes duradoiros, de gente simples, pincelando o retrato de um conjunto de pessoas que, aceitando as falhas do sistema e dos seus indivíduos, acreditava sincera e enternecedoramente no crescimento da sociedade e na sua capacidade para vencer todos os obstáculos.

Nas capas e contracapas das modernas edições deste livro pode encontrar-se – insígne ferramenta do branding meta-literário – a informação de que a obra foi sendo banida, ao longo do século XX, por regimes mais receosos da expansão bolchevique (com destaque óbvio para o Terceiro Reich). E se considerarmos o tom quase carinhoso como são derradeiramente tratados os desejos dos habitantes soviéticos, é fácil compreender o dito perigo que uma tal obra podia exercer sobre impressionáveis espíritos incertos.

A essência do comunismo, ou, mais correctamente, a sedução que um tal conceito pode operar, centra-se mais na ideia de um colectivismo de substrato pessoal do que na concepção da propriedade colectiva dos meios de produção. Passo a explicar, abrindo com a referência ao final das Doze Cadeiras, em que os diamantes, furiosamente escondidos nessa décima segunda cadeira pelos dedos ardilosos de uma velha amargurada, afinal já há muito tinham sido resgatados. Mas não por qualquer um dos protagonistas, ou tão pouco por um qualquer avaro sequioso de jóias. A pequena fortuna fora encontrada pelo director de um teatro de bairro, que entretanto utilizara essa quantia para desenvolver o seu espaço e florescer artisticamente, para o bem de todos que os quisessem frequentar. Reside aqui o erro de quem insista em ver nas Doze Cadeiras uma sátira pura ao comunismo e à sua burocratizada sociedade; por dois motivos, não vejo como conciliar o desenlace com esta visão.

Em primeiro lugar, porque encontramos um final cujo pendor político e económico pouco deixa à livre exegese: um antigo tesouro da propriedade privada foi subtraído à esfera senhorial da aristocracia para beneficiar, enriquecer, e desenvolver a vida cultural de uma comunidade amante das artes teatrais. Em segundo lugar, porque a busca da riqueza, narrada episodicamente ao longo da crónica narrativa, acaba por corromper o espírito simples e justo de Vorobiáninov, o simpático e adorável funcionário público do início da história que, esgazeado pelos furores do lucro privado, degola a sangue frio o grande Bénder, sem o qual jamais teria chegado ao fim da jornada. Deixando de parte a questão dos modelos relacionais das personagens serem tipicamente pickwickianos (até no que respeita à sua personalidade), tendo a considerar que Vorobiáninov é o verdadeiro ícone do individualismo pré-revolucionário e que ele, e não o artista Bénder, melhor representa os valores derrubados pelo renovado clima político. Ostap e as suas chalaças representam o vigarista bondoso, o patife que faz sorrir; o apanágio da sua condição é ser o homem que triunfaria em qualquer lado, em qualquer época. A restante populaça do livro – com algumas honrosas excepções – limita-se a agir, com maior ou menor sucesso, dentro do plano em que foram politicamente esquadrinhados.

O maior tributo que Ilf e Petrov prestam ao comunismo consiste na descrição de uma sociedade que, a despeito de todas as críticas que se lhe possam erguer, é amavelmente comunitária. Estas pessoas são boas. Estas pessoas, de maneirismos extravagantes e impulsos simplórios, são no fundo boas pessoas. O ponto mais sedutor de todas as teorias político-económicas, como dizia acima, encontra-se nesta ânsia idealizada por uma convivência comum. Uma vida confortável, rodeada de pessoas a que possamos chamar nossos iguais, comuns.

Claro que este desejo pela similitude é facil e inconscientemente relativizado: o rico desejaria que todos fossem ricos, o intelectual que todos o compreendessem, o artista que todos partilhassem da sua sensibilidade. Este desejo é tão egoísta quanto natural, pois não incide sobre a realização das avenidas pessoais do próximo mas sobre o módico contentamento pessoal e o que é necessário para o satisfazer. Afinal, um homem que se deseje encontrar numa comunidade aprazível pode acabar por projectar os ensejos de um colectivo que homenageie a sua imagem e inclinações em tudo o que lhe seja tolerável.

Qualquer ideia contém, ínsita, o gérmen da sua própria subversão. O do comunismo parece-me o de, sob a terna asa das suas promessas, estes sonhos (frontalmente individualistas) assumirem traços concretos para se encapotarem num plano de batalha económico composto por barreiras sucessivas e fases diversas a conquistar. É-lhes permitido ansiar, com uma espécie de nostalgia adiantada, pela perda de uma existência homogénea. Eis, simultaneamente, a maior ilusão e a maior virtude do comunismo: encorajar o eterno desejo humano de se enraizar num campo de vontades análogas, numa família extra-familiar, ainda que isso seja – pessimismos à parte – inteiramente impossível.

Seguindo esta ordem de ideias, talvez seja possível encontrar outras vias de subversão hipotética. Afinal, para cada sistema de ordenação política – e aí tombo para além das fronteiras que impus a estes textos – haverá que concluir este divertido exercício em que as vontades do individual e do colectivo de digladiam sob a lupa atenta e imparcial dos derradeiros desejos. Nada mais prático, nada mais individualmente pessoal, do que uma boa teoria política.

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