Gincana empresarial

Há alguns anos, discutia com um primo o valor relativo da série de comédia britânica The Office, elogiando a sua marca indelével de humor e exaltando-a perante a ainda limitada congénere ianque.

É claro que não o fiz por estas palavras. O facto de eu sentir a necessidade de o anunciar expressamente também não me favorece particularmente…

Mas adiante. No decurso da conversa, dei-me conta que havíamos experimentado o seu valor cómico de forma diferente. Se eu me rira com o constrangimento abstracto de situações de que todo o ser humano podia socialmente comungar, ele encontrara hilariedade ácida no retrato perspicaz de situações laborais familiares. Nessa altura, eu não passava de um despreocupado estudante, enquanto que ele era já um trabalhador que passara por vários escritórios. Em termos de simples vivência, é fantástico o que cinco anos podem representar (e assustador como em tão curto espaço de tempo duas vidas diametralmente opostas se aproximam fatalmente).

Algumas das mudas peripécias que desfilavam pelo écran já não eram, para ele, simples pantonímias de comédia, ou engenhosos instrumentos de sátira sócio-laboral, mas outrossim representações de amargas realidades, aqui e acolá testemunhadas em primeira ou segunda mão.

Por isso é que me alegro de apenas agora ter encontrado o livro L‘art et la manière d’aborder son chef de service pour lui demander une augmentation. Há alguns meses atrás, o meu contentamento restringir-se-ia à lógica irreverante de Georges Perec. Hoje, aprendiz de feiticeiro jurídico integrado nos “différents services dont l’ensemble constitue tout ou partie de l’organisation qui [m’] emploie“, encontro traços de humor próximo na descrição breve dos maneirismos empresariais que rodeiam a minha vida. Deste modo, desenrola-se, perante o meu divertido olhar, a total amplitude deste pequeno guia imprático que a pena rebelde de Georges Perec fixou para nosso deleite pessoal.

Descendo às particularidades, tenha-se presente o título do livro, exposto com tamanha clareza literal que o objectivo da obra não poderia surdir mais clara. Trata-se de pedir um aumento ao patrão. E, a fim de evitar quaisquer percalços, é também fornecido ao aspirante de remunerações estratosféricas um organigrama de uso indispensável.

Nada de mais transparente, nada de mais inacessível. Pois após reflectir sobre o assunto, após ganhar coragem e dirigir-se ao gabinete do patrão, duas coisas podem acontecer. O chefe pode estar lá dentro, ou pode não estar lá dentro. Não se encontrando no interior, haverá que fazer tempo. Falar com a secretária, fazer uma ronda pelos diversos serviços cujo conjunto constitui a totalidade ou parte da organização que o emprega, ou até, vencidos alguns condicionalismos, regressar acabrunhados ao nosso gabinete, se o tivermos. Esta é a primeira bifurcação, a partir da qual o processo pelo qual o pobre empregado aspira a um mísero aumento surge cada vez mais complicado, variável, improvável.

Neste cômputo entram considerações tão estapafúrdias quanto inegavelmente relevantes, como sejam o género de almoço que o chefe ingeriu (é preciso saber se foi carne ou peixe, e se foi peixe se foi arenque, e se não foi nenhum dos dois se foram ovos, e se sendo ovos os ovos estavam podres, ou se não sendo nada disto se estamos no período de Quaresma), o dia da semana, o facto de alguma das suas filhas ter sido acometida pela rubéola (o patrão tem sempre filhas, e há que perguntar pelas quatro, que podem ter sucumbido ou padecer dos sintomas que o ano de 1966 celebrizou em termos infames na sociedade francesa), os sinais gestuais do patrão, o conteúdo da proposta que lhe fará (porque se for uma pergunta T-4 haverá que errar de secção em secção até não achar uma resposta), enfim, uma miríade de elementos variáveis que se conjugam indefinidamente e que se erguem contra as melhores esperanças do pobre empregado.

O registo é corrido, sem pontos ou vírgulas ou interrupções, como se toda esta odisseia empresarial fosse empresa para um único fôlego apenas. Impagavelmente lógico, Perec descreve e satiriza dezenas de comportamentos e maneirismos que, ainda que de forma atenuada, agora presencio no meu ambiente de trabalho.

O cerne da intangibilidade lógica e circular dos pensamentos de Georges Perec não é tão abstracto quanto poderia resultar à vista desarmada. Observo que, em jeito de brincadeira, frequentemente reproduzia raciocínios similares durante a minha infância, inconscientemente próximos do bloqueio identificado por Perec. É claro que, como ser racional, rapidamente passava por cima dos contratempos. De resto, se planificava as coisas desta forma era por uma simples questão de gozo. A impossibilidade de vencer uma etapa não implicava a rígida imobilização da empresa. Em “L’art et la manière…” o fundamento cómico reside na obstinada persistência lógica a que o empregado tem de obedecer. Pode assalariado, incapaz de franquear as barreiras estanques do acesso ao chefe: bater à sua porta, aguardar por um sinal de confirmação, realizar a travessia pelas diferentes ramificações e departamentos, e finalmente pelas infindáveis ramificações de um diálogo seco e que jamais corre a seu favor.

O segundo pode ser observado em “The Curious Incident of the Dog in the Night-time “, em que Mark Haddon demonstra a parelha de limitações e riqueza de um mundo absorvido pela percepção de um protagonista autista. Teimosamente lógico, o pequeno rapazinho é incapaz de transpor algumas barreiras mentais que saltamos com facilidade. Pequenos estímulos sensoriais assumem as proporções avassaladoras de um tufão imparável (a descrição da ida e vinda das carruagens de metro numa estação londrina é um exemplos que se poderia apontar). Nesta narrativa, uma das dimensões é a conjugação simultânea de tarefas complementares, naquilo que pode resultar num bloqueio mútuo quando nenhuma das presentes actividades e conseguem realizar sem um sinal da outra.

É o mesmo artifício de “L’art et la manière…“, mas aqui invertido:  o registo cómico que tanto nos diverte adquire, para alguns, as proporções de um impedimento cognitivo crónico. Que dizer, pois, de um mundo empresarial, acrílico e compartimentado, que segue estas mesmas regras?

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2 thoughts on “Gincana empresarial

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