A arte e a maneira de falar sobre nada

Comment parler des livres que l’on n’a pas lus?

D’abord, il faut ne pas aborder assuntos que sejam demasiado concretos, como pormenores ou episódios. Pense-se em todas essas grandes ideias que originam de uma interpretação – não digo superficial – global e desenraizada. E sobretudo, é imprescindível evitar a falácia dita intencional (ou de intenção, ou de autor, como talvez seja correcto).

Um ponto seguro é falar do autor, e não da obra. Impressiona quando conseguimos introduzir o autor, qual peça de puzzle rebelde, numa cornija que tenha o nome pomposo de uma corrente literária ou uma escola de pensamento. ‘Já leu Vassilievitch Kharazimov? A sua propensão para o pós-simbolismo nacionalista da segunda metade do século XX chega a antecipar os traços mais pronunciados do moderno realismo nórdico’.

Não há saída possível. Se o interlocutor não souber nada de Kharazimov, terá forçosamente de concordar. Ou, reconhecendo a sua lacuna de erudição, pode suplicar uma clemente explicação que verse sobre o enquadramento temático do escritor. Nesse caso, a aposta já se encontra ganha: bastará abreviar a conversa e lançar algumas generalidades sobre (i) o autor; (ii) a época em que viveu e o contexto político; ou (iii) um qualquer seu pensamento mais controverso, com que se possa desviar a conversa. Em nenhuma circunstância se deverá falar sobre a sua obra ou algum dos seus temas mais importantes.

E se o interlocutor for um indivíduo entendido na matéria, não desesperar! Aliás, melhor ainda que o seja. Pois então, ciente de que tudo, mesmo nos mais altos círculos académicos é inteiramente subjectivo e sujeito à aposição de fórmulas como “salvo melhor opinião”, “entendemos que” ou o clássico “a doutrina diverge”, não se atreverá a contestar liminarmente a sua posição. Pelo contrário, recolherá essa opinião com apreço, dignamente impressionado. Não há que desesperar se ele fizer uma cara feia de reprovação: quanto mais embaraçado se encontrar mais descontente parecerá. E não deixará de desvendar essa mesma ideia numa próxima reunião de amigos, com imensa modéstia e um brilho de genialidade nos olhos.

Regressando ao título do livro (sim, porque tudo isto tem que ver com um livro sobre como falar de livros que não se tenha lido), importa dizer que Pierre Bayard, académico de alto nível, convive com as mais iluminadas mentes e não desconhece as técnicas aptas a ofuscar os seus pares e invoquem um sentido profundo de respeito. Não é difícil conceber como uma pessoa se pode enfastiar após longos anos sucessivos de convivência com os seus pares. Como eu compreendo o cansaço que resulta de ter de se impor constantemente! Consideremos, finalmente, o academicismo gaulês e os círculos fechados das universidades francesas. Não imagino que sejam não sejam meios exactamente amigáveis. A imagem de um covil de lobo chega a aflorar à mente sequiosa de sangue e conflito catedrático.

A fechar esta entrada,quero apenas que reconhecer que nem sequer li o livro de Bayard. Queria tê-lo lido, queria tê-lo comprado: tantas vezes passei por uma ou outra bancada em que a sua capa e o título impertinente sobressaltavam em letras gordas sobre a alvura da composição editorial. Acho que cheguei a vê-lo na sua língua e edição original, o que muito me tentou. Mas enfim, come-se do que há, e assim aqui ficam algumas linhas sobre este livro (que não li), este autor (que eu não conheço para além de um ensaio sobre Proust) e sobre este tema (em que nunca pensara antes).

Que melhor homenagem se pode prestar a um tal livro?

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2 thoughts on “A arte e a maneira de falar sobre nada

  1. reharl diz:

    Num recente Ipsilon (http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=225021), o suplemento avança algumas estatísticas que apenas tornam este livro de Bayard mais interessante.

    O importante, parece-me, é encontrar aquela massa crítica literária ajustada à sensibilidade de cada um. Por outras palavras, ler muito para encontrar os poucos que vale a pena reler.

  2. reharl diz:

    E sim, já li 1984.A sério.

    Raios, depois de um par de textos como estes nunca mais ninguém vá depositar qualquer confiança nas minhas credenciais literárias…

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