Oh, da vida feliz!

Dois pontos digno de nota nesta Da Vida Feliz de Séneca.

Sobressaem, por um lado,  as alegações erigidas contra o epicurismo, uma corrente que actualmente entende como a encarnação de um estado de alma amigavelmente aberto aos sentidos do mundo e às suas saborosas tentações, numa contínua fruição dos seus encantos e numa condição de altivo orgulho e laxismo prazenteiro. Pela minha parte, tenho que as fronteiras entre esta concepção contemporânea e as do hedonismo se encontram demasiado indistintas para o meu gosto. Do confronto com a história das ideias, em que este pequeno texto é uma valiosa janela, fica implícito que o Epicurismo era, na verdade, bem mais severo do que aquilo que as gerações futuras se habituaram a ver no conceito.

Já o estoicismo, em que Séneca se integrava, representa uma compressão de sentimentos, contrária à distensão de atitudes epicurista. Inevitável, surge a pergunta:  se você, Séneca O Jovem, professa uma orientação estoicista, como justificar que goze das suas riquezas, refastelado de confortos e subserviências?

Com efeito, este filósofo, orador, político e senador era consideravelmente abastado.  O mais desatento dos seus seguidores podia, por conseguinte, suscitar a legítima questão de saber se esse estado de apaziguamento material quase faustoso era de algum modo contraditório com a essência de uma alma estóica ou se, de outra forma, as duas realidades seriam conciliáveis.

Franqueados os intróitos, inicia-se a verdadeira Da Vitae Beata. E aqui, a técnica retórica de Séneca é clássica e límpida. Pulsando fortemente a sua verve de orador, Séneca começa por alimentar as objecções que os seus inimigos lhe apontam com outros argumentos tão ferozes que nem o mais venenoso dos seus oponentos se lembraria de invocar. De seguida, desfaz o novelo de críticas e invectivas.

Toda a escola de pensamento, e por conseguinte, de vida, é uma via para o alcance de um determinado valor. Séneca busca a razão e a virtude. Ora, quem prossegue, por essa vida fora, quem sobe ou desce por uma íngreme ladeira há de precisar de alguém que o empurre ou segure. A virtude basta-se a si própria, mas porque se alimenta a si própria deve buscar todos os meios que facilitem a sua derradeira tarefa. Ou pelo menos, não deverá ignorar as afortunanças que por essa vida fora surjam para a auxiliar. O enquadramento virtuoso deste raciocínio tendencioso está em que, desaparencendo os confortos e as amenidades, o coração virtuoso não desespera. Nem sequer sente a sua falta (antes sentirá a falta do seu acréscimo, mas como não existe para além da sua própria busca, não pode almejar algo que não a alimenta verdadeiramente).

Já o desventuroso desvirtuoso descobre que, sumidas as benesses providenciais, a sua vida era afinal indissociável desses auxílios materiais. E a ilusão torna-se patente.

Difícil desconstruir esta argumentação desculpabilizante. Séneca conheceu uma morte digna das ideias que fixou para a posteridade atenta. É certo, todavia, que os seus bens materiais nunca chegaram a ser confiscados, mesmo quando Nero ordenou que tirasse a sua própria vida.

Pode pensar-se que, por ter aceite o fim da vida com serenidade, Séneca teria caminhado para um desfecho pugnante em estoicismo. Todavia, sinto-me tentado a chamar a atenção para o facto de romanos da sua época com filiações em escolas de pensamento opostas reagirem frequentemente com o mesmo modicum de resignação e tranquilidade. Haverá alguma simplificação em dizer que a morte e a vida eram simplesmente encaradas de forma diferente, nesses tempos, mas todavia é fácil relembrar Suetónio e as palavras que coloca nos gestos de Augusto, que ao sacrificar escravos e prisioneiros limitava-se a proferir com paciência e solenidade ‘É necessário morrer’.

Não teria Séneca, o Santo Séneca, experimentado até o mais pequeno dos frémitos de terror se acaso tivesse sido despojado da sua propriedade, privado de comércio (deliciosa expressão) com a sua esposa, dos seus escravos, numa palavra; das suas riquezas que tanto o empurravam ou seguravam nas ladeiras perigosas da virtude? Ao aceitar que a virtude comporta esta contribuições, estes ímpetos ou refreios instrumentais, o filósofo entreabre os portões da sua moradia a um óbice não despiciendo de importância. Ao aceitar que se pode auxiliar a virtude, do mesmo modo que se a pode toldar por diferentes meios, não acaba então por conceder que a sua força se encontra dependente destes esforços exteriores? Como pode algo que é inteiramente puro beneficiar de elementos exteriores à pureza que a enforma? Para empurrar algo é necessário que o objecto dos nossos esforços tolerem o embalo.

Por infantil que seja este exercício intelectual, gostaria que alguém lhe tivesse dirigido esta pergunta. Ou que ele a tivesse aposto ao conjunto de objecções a que responde.

Arrisco-me a antever uma resposta? Séneca não aspirava a uma condição espiritualmente plena, nem procurava, ao passear através dos jardins da sua virtude, existir sem mácula. O epicurismo é apenas uma escola para a descoberta da virtude, agindo por mecanismos de sucessiva depuração, sem nunca atingir o derradeiro estado de absoluta pureza. Durante a vida de Séneca nasce Cristo e iniciam-se os grandes movimentos evangelizadores (que os pensamentos medievais ousaram considerar ter convertido o próprio filósofo!). A condição humana nunca antes fora tão agudamente incompleta, tão consciente das suas limitações. Neste novo plano, é possível conceber uma pureza absoluta da virtude: esta pertence a realidades celestes ou espirituais. A demanda por essa qualidade, todavia, permanece fatalmente humana.

Com as etiquetas , , , ,

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: