O celerado

Era Salvador, sujeito gordo e com um bigodinho antiquado. José considerava-o uma criatura repugnante, daquele género de indivíduos que entendia poder reinar inconvenientemente com todos os que se encontrassem na sua presença, rebaixando-os sob a guisa de objurgatórias inocentemente trocistas e tão rotineiramente masculinas. Era um gozão, este homem, sempre ladeado por um grupo fiel de convivas sequiosos, e as grosserias que cometia por palavras e gestos passavam-lhe largamente despercebidas. José perdera a conta de quantas vezes se sentira profundamente insultado por alguma observação vinda deste bojudo brincalhão, apenas para se encontrar, cinco minutos mais tarde, cerrado num abraço viril com que Salvador, não admitindo as maleitas prévias, procurava outrossim redimi-las mediante lérias e desculpas de convívio. Bastava vê-lo nesse preciso momento, contemplai-o, as maçãs do rosto mais ruborizadas pela prosápia incansável que perdigotava do que pelos efeitos do bagacinho que segurava entre os dedos e com que traçava longos arcos no ar, ao sabor das suas frases.

— Ó Amarelinho, não bebes nada aqui com a malta? — foi a pergunta, incisiva e desferida como uma punhalada triunfal.

— Fica para mais tarde — replicou Marulino, reprimindo a raiva de se ter  colocado numa situação de vulnerabilidade  àquele género de observações tão absurdamente previsíveis, — tenho um turno a começar agora mesmo.

Com isto, esboçou um sinal de despedida e traçou o casaco pelos seus ombros. Nas suas costas, José Marulino de Azevedo sentiu o estalar de uma risada, resfolegar jocoso com que Salvador apontava algo que decerto considerava uma qualquer fraqueza reveladora de grande falha de carácter. Ao sair do estabelecimento, Marulino ainda povoou uma imagem mental em que o rotundo fulano, banhado pelo seu riso selvagem, lançava as suas invectivas vexatórias por cima de um auditório extenso e em alegre alvoroço perante a audácia do seu herói. Acabou por encolher os ombros e recolher-se no assento de condutor do seu táxi.

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