Simplicidade

Não há escolha mais difícil ou decisão mais desconcertante do que ter de optar entre um narrador na primeira ou terceira pessoa. Logo ali, quando a obra ainda tarda a despontar, quando o rebento da criação se arroja a brotar do solo, confiante e de olhos fixados no céu, ali mesmo cai a rotunda escolha de toldar, limitar, e moldar tudo o que doravante se seguirá a esse minúsculo frémito inicial e triunfante.

É quase tão assustador quanto uma folha em branco.

Ah, porque tem de ser um ou outro narrador? Porquê uma voz que não perpassa do seu umbigo, contra uma que, aérea, tudo vigia e todos compreende? O primeiro pode mentir (e frequentemente foge ao meu controlo, reclamando uma voz que não é minha), o segundo não tem acesso a toda a verdade (e portanto torna-se arrogante e presuntuoso).

Quero um narrador total! Não terá sido por acaso que terei dado ao meu primeiro livro três narradores diferentes, em três histórias entrelaçantes: um narrador pessoal, de vistas curtas; um narrador distante, isométrico; um narrador stendhaliano, omnisciente, satírico. Ainda assim, é tão difícil, evitar que se interponham barreiras adicionais entre o que penso e o que escrevo! A minha imperícia literária é obstáculo bastante.

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