O Inverno regressa

Ocorreu-me que se eu conseguisse subjugar esta inesperada recaída no spleen tenebroso a que sazonalmente me entrego como um escravo, que se eu conseguisse comandar com segurança ou paixão esta magnífica energia melancólica que tem acompanhado os meus últimos dias, então teria já realizado encaminhado bons esforços na realização de tarefas e obras de que muito me orgulharia agora. Digo isto no tom mais abstracto e difuso possível. Hélas, as horas do dia encontram-se usurpadas pelas vivências inconsequentes de tarefas meniais, profissionais, abjectas! Eu sou inferior porque não desejo o suficiente para ser outra coisa. Não há para mim qualquer interesse. Não há em mim qualquer interesse. Oh homem do subterrâneo, que te pasmas com a ligeireza das felicidades simples das gentes de fora! Mas qual é o seu segredo? O seu entusiasmo não é o meu.

Intencionava escrever sobre a crise da insensibilidade que trespassava, sobre esse gélido manto que insistia em amassar os meus sentidos e me roubava do tacto necessário para explorar o drama humano. Encontrava-me preocupado com essa apatia.  Eis que agora sinto tudo, incluindo os ululantes frémitos de paixão que me levam à loucura e ao sofrimento. Nunca mais! Estava a ver que nunca mais! Jurei que nunca mais! Nunca mais juro! Afora com esta Fera Amansada! A coisa é séria: já começo a escrever como um adolescente em tempos de solidão. Aglomerado de emoções dolorosas, benvindo sejas no teu regresso.

Porque não consigo fazer nada com toda esta desolação? Tenho livros inteiros para escrever. Diálogos consecutivos aparecem-me perante o olhar, ensaiam-se nos meus ouvidos. Gestos são desenhados, abundam as bifurcações. Quebro-me em sorrisos quando idealizo uma frase especial, perfeita, sonante. Revejo passagens de grandes livros. No outro dia quase desbraguei em gargalhadas quando me recordei da imagem de Akaki Akievitch a puxar um sobretudo das costas de um transeunte nocturno aterrorizado, com os olhos muito esbugalhados. Depois chego a casa e reparo que preciso de escrever sobre o jornalista checo, sobre o meu louco de Praga. Sobre Armand de Givres e o seu traiçoeiro amigo, sobre aquele indiano que, contra o breu de um rio africano silencioso, me ensinava os derradeiros segredos da sua casta e me expunha a sua natureza ontológica. Preciso de completar o meu conto sobre o diário circular, tributo fraco ao Zahir e ao Livro da Areia. Ainda não acabei a fábula de Urbino, ainda não iniciei o estudo do meu monarca fiorentino e a ária da sua queda. Tenho ideias para a peças de teatro, a exploração da temporalidade, a angústia do fingimento incontrolável e horrosamente consciente. Queria ter rehabilitado as Efemeridades Electivas antes das fogueiras do Natal. Mas para isso preciso de ler Williams, digo. Para os outros preciso de reler Borges. Como posso terminar um certo conto sem Gide? Yeats chama por mim, as brumas do seu pensamento imiscuindo-se nas horas dormentes. Ivan Illitch está para morrer há alguns meses; Pushkin já teve tempo de lhe dedicar três poemas. As construções queirosianas reflectem o que eu não sei de Flaubert. Eu acuso! A minha reverência definhante de Stendhal, o chamamento de mitos antigos em línguas que eu nunca saberei ler.

Eu é que ainda não percebi que isto é infindável. Tenho uma capacidade admirável para a ilusão. Sempre foi o meu maior traço; o escapismo a todo o custo, a destruição suave, o adormecimento dos meus sentidos, a crença de que tenho força e que esse poder chegará para os dias de amanhã. Eu ainda hei-de aprender. Mas tenho ainda de perder tudo e, acima de tudo, enterrar a minha tremenda arrogância no solo de estepes frias e ignotas.

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