A dimensão oculta

No final do seu estudo ímpar, a Dimensão Oculta, o antropologista Edward T. Hall elabora a conclusão que prefigurou cada uma das suas linhas. A cultura, explica então, é um dado tão humano que chega a ser um dado animal. Antecede e enforma o ser humano e, ainda que possa ser momentaneamente consciencializada, para sempre actuará fora do alcance das nossas rédeas deterministas. Nada mais importante justificará a atenção que se deve conferir à maneira como o ser humano perspectiva e interage com o seu mundo.

Neste estudo, a dimensão em apreço é o espaço, a cujo estudo se dá o nome aproximado e tenteante de proxemics.

Há um rigor evidente na forma como Hall se aproxima deste tema, uma abordagem a que já me desacostumara neste género de estudos. Lidamos aqui com uma publicação de primeira água, alicerçada em sólidas referências empíricas. Lista-se, descreve-se, e acima de tudo explica-se o sentido e a importância de experiências e observações levados a cabo em diferentes espécies animais (focando sempre a alternatividade de comportamentos perante a alteração de um único elemento: o espaço). Ressalta uma espantosa similitude com a maneira humana de ver as coisas e sentir a realidade, mas Hall não traça, como é evidente, paralelismos grosseiros e atabalhoados. Bastará dizer que, tanto para humanos e para animais, as distâncias de segurança, de intimidade e de perigo, circunferências espaciais de dimensão variável, podem ser medidas com uma assustadora precisão.

O livro é fértil em considerações sobre a maneira humana de encarar o espaço. Hall explora cada um dos cinco sentidos e a forma como são  utilizados como instrumentos de relação perante o espaço que nos circunda. O registo é, por vezes em simultâneo, científico e desarmantemente simples. Ao  traçar uma incursão pelos desenvolvimentos artísticos e históricos dos últimos séculos Hall revela toda a sua perspicácia. Qual foi a primeira referência literária à importância do espaço? Que fez Van Cogh que foi tão extraordinário tendo em conta o funcionamento biológico da retina humana?

Chegamos depois aos estrondosos capítulos sobre o valor que atribuímos ao espaço, apontando-se como esta percepção varia de povo para povo, entre culturas ou idades. Um trabalhador num escritório achará o seu cubículo espaçoso se conseguir, por exemplo, esticar as pernas, ou se, ao recostar-se no seu cadeirão empresarial, não bater com as costas ou os ombros na parede. De facto, o seu espaço de trabalho pode nunca deixar de ser um miserável cubículo de proporções encravadas, mas a percepção que ele fará do seu espaço entretanto alterou-se drasticamente com base em alguns centímetros ou na disposição de uma mesa. Uma dona de casa odiará a cozinha em que labuta se não conseguir alcançar todas as prateleiras ou se, por exemplo, o corredor de passagem não permitir o cruzamento de duas pessoas.

Em países árabes, o espaço entre as pessoas é um dado imediato e importante no relacionamento humano. Em todas as suas facetas: o contacto visual tem outro sentido, respirar para cima das pessoas não é tido como grosseria, e a privação de espaço doméstico e de paisagem é vista como um castigo severo. Do mesmo modo, o espaço público pertence a todos, e por todos deve ser conquistado. O incómodo que um ocidental possa experimentar ao ter alguém sentado muito próximo dele pode ser livremente explorado por um árabe que pretenda ocupar o seu lugar.

Há exemplos mais simples. Um alemão trabalha com a porta fechada, um americano com a porta aberta. Para o primeiro, é uma questão de sossego e privacidade. Para o segundo, porta fechada é sentido como uma amputação de um espaço partilhado, e portanto uma falta de educação. Hall lista com habilidade alguns exemplos de discórdia célebres que se começaram a registar em sucursais de empresas americanas instaladas na Alemanha, e em que trabalhadores de ambas as nacionalidades coexistiam não muito pacificamente por causa do “simples problema das portas”. Como fazer com que os alemães das nossas sucursais trabalhem de porta aberta, era a pergunta muitas vezes repetida perante cultores americanos de corporate governance.

De igual modo, entrar no estabelecimento comercial de um alemão é, já de si, uma intrusão no seu espaço. Pelo que será de bom tom dirigir-lhe uma saudação ou cumprimento. Aprendi isto na pele muito antes de ler este livro, que finalmente me explicou o fenómeno. Nas horas moribundas de um começo de tarde em Viena, não longe da WestBanhoff onde os meus amigos terminavam de arrumar as malas em fortes cacifos antes de invadirmos o Schönbrun, entrei numa pequena pastelaria para me aproveitar de algumas iguarias. Havíamos zarpado de Budapeste a horas insanas e era necessário improvisar uma refeição. O estabelecimento era pequeno e familiar, e no seu interior encontravam-se um ou dois clientes prestes a serem aviados.

Entrei sem nada dizer. De facto, tenho por hábito – e estou certo que esse será o costume da maior parte dos lusitanos – apenas dirigir uma saudação ao dono do estabelecimento no momento preciso do aviamento. Foi o que sucedeu; cumprimentei cordialmente a senhora apenas quando chegou a minha vez. Por essa altura, as suas feições já se encontravam duramente antipáticas e inimigas. A despeito da minha conversa ligeira, serviu-me o mais brevemente possível e seguiu, sorridente, para o cliente seguinte.

O cliente seguinte era um transeunte normalíssimo. Mas tinha entrado alguns momentos depois de mim e imediatamente dirigido um ‘ßGott! à pasteleira. Já relativamente às bancadas de rua, não havia um geschaftraum propriamente dito, um espaço imputável ao dono da bancada. Por esse motivo, podiam formar-se filas para comprar um wienerschnietzel – numa situação em tudo semelhante à configuração da clientela na pastelaria – sem que fosse necessário dirigir um cumprimento ao dono.

Começo a perder-me em parágrafos descritivos, o que é sinal que não tenho nada a acrescentar ao conteúdo do livro. Normalmente consideraria essa falha uma lacuna da minha capacidade crítica, mas creio que, em algumas instâncias como esta, isso se deve antes ao primoroso valor deste estudo. Dou-me agora conta da banalidade e irredutível inutilidade das palavras que aqui deixo, e que no limite constituem um grave desfavor às ideias deste autor. Mas este livro modificou a minha maneira de encarar o mundo em algumas vertentes e, como experiência visceral que a percepção do espaço é, afigura-se para além das minhas capacidades dar a conhecer a amplitude dos meus pensamentos sobre a matéria.

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