Notas soltas: a Origem do Cristianismo

Deixo aqui alguns apontamentos sobre a primeira parte da L’origine du Christianisme, série documental superior sobre alguns aspectos históricos e teológicos deste credo.

A grande questão que se coloca, em jeito de abertura, é a de saber se esta figura de Cristo fundou ou quis fundar a Igreja. Longe de se criar uma querela apaixonante, surge logo aí surge uma considerável unanimidade na posição negativa. Utilizar um termo como cristianismo para descrever as operações de culto nesse tempo é, imediatamente à partida, francamente anacrónico. Aquilo que Jesus realizou foi estabelecer um modo de crença específico dentro das correntes judaicas vigentes na época, mas ainda assim circunscrito ao espírito religioso do tempo. Também se deve ter em consideração que a palavra Igreja deriva linearmente da raiz grega ecclesia, cujo significado é reunião. Esta reunião, no cristianismo da época, resumia-se a alguns ajuntamentos de uma dúzia de membros. É, todavia, possível falar em congregação agindo em modo de culto religioso, no sentido mais básico que o termo comporta. Daqui não se retira, como é claro, a existência de uma Reunião ou de um modo secular e instituído de fé.

Na verdade, o conceito de Igreja enquanto instituição deve muito à mão evangelizadora de Paulo, bem como ao poder irradiante do simbolismo de Pedro.

Esta posição de Pedro, o sucessor de Cristo, foi sempre realçada pela Igreja. Em torno dela se estabeleceu uma formalidade de culto própria e um conjunto de ritos que seriam mantidas durante séculos, persistindo até ao nosso tempo. Mas, na verdade, sugere-se com alguma autoridade que a Igreja possa ter assentado numa interpretação um tanto exagerada do simbolismo conferido a Pedro, nos evangelhos. É um facto que, segundo S. Marcos, Cristo lhe chama Pedro, a rocha (ou a pedra) sobre a qual será construída a sua Igreja (e actualmente a palavra encontra-se generalizadamente traduzida desta forma).

Resta saber se Pedro realmente foi investido de uma capacidade excepcional ou se os outros apóstolos – e seguidores, em geral – não receberam honra idêntica. É fácil apontar a literalidade do facto: temos verdadeiramente uma passagem de onde constam estas palavras poderosas e claras. O mesmo evangelista, todavia, acabar por conceder igual posição aos restantes membros da congregação, em outros locais do texto. A referência explícita a Pedro, bem como a sua posição aparentemente cimeira numa hierarquia que seria afirmada pelo papado desde então, poderá constituir uma tentativa de S. Marcos em reformar a personagem de Pedro aos olhos dos seguidores. Não esquecer que este era o homem que impulsivamente negara Cristo três vezes. Também deste modo se aclara a existência do episódio em que Cristo o chama três vezes, e por três vezes Pedro declara que O ama.

No final, permanece esta curiosa perspectiva. Temos hoje indubitavelmente uma Igreja, que utilizou o simbolismo conferido a Pedro para transferir de Jerusalém para Roma o seu poder religioso. Tudo isto acabaria por ser submetido ao olhar atento e vigilante do papado – uma instância de topo, legitimada pela própria palavra do Senhor! E, no entanto, poucos motivos existem para considerarmos que Pedro, o fundador desta ecclesia, era realmente um preferido, um escolhido, ou tão simplesmente um homem a quem fora confiada uma missão.

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