Dos outros

Desconheço que surto de insanidade temporária me levou a crer que passear pelo Príncipe Real durante a minha hora de almoço e aproveitar o jardim para ler um livro seriam uma boa ideia. Em verdade, desde que iniciei a minha triste vida profissional que procuro um lugar recatado onde me possa entregar às letras du jour e manter uma réstia de singularidade intelectual durante a única hora livre de que disponho.

Não que a companhia dos meus colegas de trabalho, nas suas decrescentes oportunidades para almoçar calmamente, não me seja agradável. Bem pelo contrário, tenho-me achado um tanto surpreendido pela forma como me afeiçoei a uma ou outra pessoa de entre este peculiar grupo. Nada de pessoal, todavia, em procurar algum isolamento de espírito com que alimentar a alma de matérias mais literárias.

Chegado ao jardim, ponho-me a cirandar pelo meio de alguns canteiros em busca de um banco confortável. Encontro a localização ideal, junto de um passeio interior largo, sem árvores a ladearem ostensivamente os rebordos ou a escorrerem folhas, insectos e pássaros sobre o infeliz que sobre as suas copas murchas se abrigue. Infelizmente para mim, a esplanada do lado encontra-se em plena actividade, cozinhado os seus almoços grelhados e aspergindo por toda aquela área do jardim – decerto a mais aberta e luminosa – um forte odor a carne e óleos.

Procurei refúgio desta intempérie de aromas grelhados no outro lado do pequeno jardim. Julguei ter encontrado um recanto sossegado, e ao abrigo dessa ilusão saquei do meu caderno de notas para lhe ajuntar algumas linhas. Não tardei a amaldiçoar todas as criaturas vivas e restolhantes daquele malfadado espaço nobre da cidade. Dois velhos sujos gritavam conversas ordinárias num banco ao lado. Dois outros, acompanhados de um cachorro de sobrolho infelicíssimo, vagueavam por caminhos interiores onde se acumulavam garrafas vazias de cerveja, soltando exclamações inqualificáveis. Nem sei como as descrever: ao princípio ainda julguei que esses “Ham, ham” que tão prontamente desprendiam se destinavam ao chamamento de cães vadios. Mas não; era uma forma de comunicação entre alguns dos seus congéneres que não cheguei – nem me dispus – a identificar.

A bordejar o parque estava instalada uma concentração de feirantes, expondo em mesas corridas e sobre toalhas velhas quinquilharias diversas. Claro que, com os feirantes, tinham vindo as suas famílias. E assim se encontrava o jardim repleto de crianças irrequietas e adolescentes mal-encarados. Os habituais geradores de electricidade tinham sido judiciosamente colocados em áreas que não afectassem os delicados tímpanos dos feirantes e seus prezados clientes, o que equivale a dizer que tinham sido plantados nas parcas áreas de lazer do recinto ajardinado, ao pé dos restantes infelizes.

Não sei o que me acabrunhou mais: não ter encontrado, ainda, um bom local de repouso e calma durante as horas de almoço, ou ver aquilo que poderia ser ver um simpático jardim numa parte esplendorosa da cidade arrastar-se pelos anos com ares tão decadentes, sujos, e no todo deploráveis.

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