Os Estados falhados de Chomsky

Conclusão da leitura de um recente livro do persuasivo Noam Chomsky, cuja reputação de intelectual e activista político encontra poucos paralelos no Ocidente. Com toda a sinceridade, e no que diz respeito à sua vertente de comentador, não me posso considerar um devoto leitor dos seus comentários políticos. Simplesmente, e embora acompanhe de tempos em tempos as suas severas críticas à política externa dos Estados Unidos, nunca separei um pouco de tempo para me familiarizar com algumas das suas ideias correntes, exceptuando uns breves encontros com as suas teorias de geração gramatical. Aí, os nossos congéneres brasileiros utilizam indistintamente as expressões gramática ‘gerativa’ ou ‘generativa’, locuções correctas, suponho, mas enfadonhamente anglicizadas.

Failed States: The Abuse of Power and the Assault on Democracy pode ser resumido como uma certeira rajada de metralhadora em que o eminente crítico, apoiado numa bibliografia e documentação tão extensa e rigorosa que chega a ameaçar o ritmo e fluidez da sua escrita, desfere rudes e troantes golpes contra a política externa do governo americano durante as últimas décadas. Ainda como nota preliminar, noto como os académicos de filiação anglo-saxónica parecem nutrir um estranhíssimo ódio a qualquer manifestação de  notas de rodapé, preferindo empurrar qualquer indicação bibliográfica ou a menor das citações para as secções finais das suas obras. Ao fim de duzentas páginas, uma pessoa farta-se de equilibrar e conjugar dois marcadores. De uma forma ou outra, o estudo encontra-se impecavelmente fundamentado. A força do seu trabalho reside sobretudo na conjugação da miríade de factores geo-políticos com o tema abordado. Esta depuração permite-nos ignorar algumas das suas interjeições ou conclusões prévias que espaçam os parágrafos mais expositivos, e que desde os anos sessenta têm sido progressivamente identificadas com posições de acentuada esquerda. Diriam os nossos amigos americanos, liberais.

Não duvido que o conteúdo do livro surja cansado e repetido aos que acompanham o teórico desde as mais tenras datas. Todavia, é difícil argumentar contra a certeira salva de pessimistas observações que aqui se desenrola. Quase ouso considerar alguns destes capítulos, ou pelo menos algumas secções agrupadas de uma obra que ainda não conheço, como elementos fulcrais para a compreensão da história contemporânea. Por mais falhas que se queiram apontar à verve ácida de Chomsky, a verdade é que a sua pesquisa desvenda com frequência planos alternativos e perspectivas diferenciadas que o primeiro olhar não revela.

Especialmente caro à minha consideração é o tema do défice democrático interno. Chomsky demonstra, a cada turno, que a opinião pública, que é crescentemente mais fácil de auscultar, encontra-se cada vez em maior desacordo com a public policy de um governo que a contraria em aspectos tão essenciais como a segurança social, os sistemas de saúde, a educação, a segurança interna. Em todo o mundo parece um dado assente – ao mesmo tempo que se proclama o fausto brilho de democracia que praticamos – que os políticos que elegemos num dia são velhacos trapaceiros no seguinte, com quem afinal já não podemos contar. Só um homem da nossa era não acharia isto absurdamente extraordinário. É frequente escutar diatribes mediáticas que honram os nossos antepassados pela conquista do direito ao voto e pela vitória sobre as hordas bárbaras que repudiaram a democracia, mas poucos se atrevem a retirar as devidas consequências do estado de coisas actual. O que vale um voto, o que vale uma opinião?

Talvez nem seja essa a verdadeira questão. Verdadeiramente preocupante é a instrumentalização do pristino ideal democrático à prosecução de interesses que largamente ultrapassam a vontade do corpo eleitor.

Algumas notas soltas mais. Outro tema aflorado acaba por ser a legimitização de um elevado número de actos por parte da administração. O que equivale a dizer, desculpabilização. Há que rever a ideia que temos da Vox Populi. Assiste-se a um desinteresse completo por promessas eleitorais ou planos de reforma. O político mente. Toda a gente o sabe, ninguém deve ser apanhado desprevenido por esta realidade e, assim, ela torna-se aceitável. Isto leva ao abrandamento da criação de uma estrutura judicial que fiscalize e puna as infracções dos órgãos de soberania, cada vez mais arrumadas com primor em campos que não chegam a ser considerados ilegais, ilícitos, inadmissíveis, ou muito simplesmente indecorosos. O hábito da mentira faz de todos nós monges devotos.

Segunda nota: a formação de núcleos sócio-políticos distintos e opostos, numa estrutura tripartida em que a Administração, o eleitorado e os interesses económicos, medem as suas forças numa arena em que os media participam e se inserem, dependendo da sua origem ou financiamento, num dos grupos acima referidos. Não há acesso à Verdade. Filosoficamente, a verdade é cada vez mais uma questão de ponto de vista.

Terceira nota: o esvaziamento do conteúdo democrático. O voto desacredita-se, a opinião pública crê-se impotente e insignificante. Quando isto sucede – Chomsky é especialmente hábil neste ponto – assiste-se a um empolamento sem precedentes dos valores democráticos nos nossos países, com a consequente cruzada política que insiste em empurrá-los pelas goelas abaixo dos povos menos civilizados.

Nenhum livro deste autor ficaria completo sem uma referência a Israel e aos dilemas do Médio Oriente. Desmascara-se, por exemplo, o teatro televiso da retirada da faixa de Gaza. Recordo-me muito bem das imagens que, num verão despreocupado, bombardearam os nossos écrans, explorando ao máximo a miséria de um povo que, na sua terra, era forçado a exilar-se uma centena de metros para casas modernas, com jardins servidos por modernos serviços de irrigação e urbanizações funcionais criadas de raiz. A presente leitura torna ainda mais difícil não sentir a minha inteligência insultada.

Adoptando uma posição intermédia, Chomsky desfere novamente duras críticas ao radicalismo sionista, citando o conteúdo de alguns assustadores acórdãos do Supremo Tribunal de Israel. Há que conceder razão num ponto: um tribunal que julga a morte de uma esposa como uma dado favorável ao marido – porque este passou a ter menos encargos financeiros com a sua subsistência – e que portanto não há lugar a qualquer indemnização por dano-morte ou por danos morais, é um órgão jurisdicional que, para além de não poder ser tomado a sério, acaba de emitir um atentado ao mais básico sentido de moralidade humana. Muito francamente, esta linha de jurisprudência é mais chocante que a célebre decisão da Coutada do Macho Ibérico – sem, infelizmente, não ser tão divertida, sobretudo para um Estado que exige ser reconhecido como uma construção moderna e civilizada de direito.

Como se vê, este livro de intervenção não é propriamente neutro, quer na sua carga valorativa quer no conjunto de assuntos que aborda. É, todavia, uma abordagem à política externa norte-americana que provoca intensa reflexão e que deverá constituir um ponto de apoio sólido a qualquer pensamento organizado que se faça sobre o papel da democracia no mundo contemporâneo.

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