Acorda o Imperador

Coordenava os meus pensamentos. Antínoo estava morto. Quando era criança. gritara sobre o cadáver de Marulino, espicaçado pelas gralhas, mas como grita à noite um animal privado de razão. Meu pai tinha morrido, mas um órfão de doze anos só notara a desordem da casa, o choro de sua mãe e os seus pavores; não tinha sabido nada dos terrores que o morto sentira. Minha mãe morrera muito mais tarde, na época da minha missão em Panónia, não me lembrava exactamente em que data. Trajano não passara de um doente a quem se tratava de fazer ditar um testamento. Não tinha visto morrer Plotina. Atiano tinha morrido; era um velho. Durante as guerras dácias havia perdido camaradas que julgava amar ardentemente; mas éramos novos, a vida e a morte eram para nós igualmente inebriantes e fáceis: Antínoo estava morto. Lembrava-me dos lugares comums frequentemente ouvidos: em todas as idades se morre; os que morrem jovens são amados pelos deuses. Eu próprio participara nesse infame abuso de palavras; falara em morrer de sono, morrer de aborrecimento. Empregara a palavra agonia, a palavra luto, a palavra perda. Antínoo estava morto.

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