Interpolação fraccionada

Há uns tempos atrás, buscava num jardim um lugar calmo onde pudesse ler e estudar em paz quando me deparei com um velhote, sentado numa das frias e ásperas bancadas que ladeiam um dos edifícios entre a minha morada e o parque. Tinha consigo um balde, uma serra, um pedaço de madeira. Absorto, serrava o toro com precisão e intento. O som cortava o gélido ar do exterior com a mesma satisfação com que anunciava o trabalho manual.

Ponderei a hipótese inusitada de um oficina ali montada. Um velhote que todos os dias traria as suas ferramentas e ali trabalharia durante algumas horas. Talvez apreciasse a distracção, ou quisesse sair da sua bafienta residência. Talvez não tivesse espaço em causa para a sua carpintaria, ou não lhe apetecesse varrer a serradura que se imiscui entre o chão de madeira que algumas destas casas ainda oferecem. Talvez fosse casado com uma rabugento alguém que não apreciasse grandes obras dentro da sua moradia. Quem sabe se não apanhava da rua ou do bosque circundante toros de madeira e se dedicava a lhes conceder as mais diversas formas, ou a lhes consagrar um propósito útil junto de outra mobília.

Quando era pequeno gostava de pegar em tábuas dispersas, inúteis, dar-lhes formas, fazer delas pisa-papéis, molduras, coisas pequenas. Lixava-as, polia-as, chegava mesmo a pintar e encerar algumas para as oferecer aos meus pequenos amigos da primária. O produto final do meu labor era tosco e rude, por vezes desfiando-se  numa ou outra farpa insolente.

A imagem persiste: a de um homem que deixa o conforto do seu lar e empreende uma actividade no exterior, por muito simples ou excêntrica que ela venha a ser. Assim ocupa os seus dias.

A reflexão surge igualmente à luz do desejo de escrever. Penso na história que nunca escreverei, imagino como aí poderia integrar uma personalidade destas. Certamente como um pormenor. Mas todas as boas narrações de um certo tipo devem passar pelas suas personagens secundárias e pelo menos instilar a ilusão de que elas têm uma vida, que pensam, choram e alegram-se, e que continuarão a fazê-lo muito depois do leitor ter consumido as linhas e passagens onde elas habitam.

A alternativa é a narrativa egoísta, mecânica e ordenada. Um caminho determinado, um desenlace programado, e a ordenação inevitável de tantos outros elementos, de sina relativa e de segundo plano, com vista a um único fim. Cessa a vida para além da intenção do autor, e deixa a arte de estar subsumida à existência dos nossos dias.

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