Percurso pela abstracção de uma etimologia: a euforia e o ser.

A hora é tardia e os meus afazeres acumulam-se, mas nem todas as obrigações deste mundo conseguem extinguir a minha curiosidade e o meu interesse pelos limites do meu mundo, no dizer de Wittgenstein: a linguagem.

E agora, a euforia. Todos nós sentimos que a conhecemos, que a conseguimos definir e que a sua sensação nos é tão familiar quanto os surtos de alegria que vivemos de tempos a tempos. E nem estaremos errados, pois a palavra assume um significado preciso e corrente nos nossos dias. Mais do que sedimentado, o seu alcance tem sido construído por alegorias e sucessões de eras de pensamentos.

Visitemos a etimologia clássica por um momento, εὐφορία em grego.  εὐ significa algo de bom. Um bem, um valor, uma sensação de bem. φορία refere-se, e aqui começa o fascínio, significa levar, carregar, transportar.

Euforia é o estado daquele que transporta o bem, mas um bem que existe dentro do próprio ser, num equilíbrio maravilhoso entre o indivíduo e o mundo exterior. Não chega a afirmar-se como uma condição de êxtase, que é uma existência completamente exterior ao ser. Aí, deparamo-nos com o mundo e a sua imensidão que ameaçam as fronteiras do ser e com a conquista de fora para dentro. Aquele que está extasiado não existe verdadeiramente; foi tomado por uma realidade avassaladora que confundiu as suas fronteiras e o roubou de limites.

É por esta ocasião que me deparo com os textos de Michel Tournier.

Não será este autor a derradeira referência etimológica para a compreensão da euforia? Tournier utiliza o conto de São Cristóvão e a sua travessia com Cristo como ponto de partida das suas reflexões. Vale a pena recordar esta pequena história, que começa muito antes de um menino pedir a um gigante que o ajude a atravessar o rio. Cristóvão fá-lo, mas depressa se apercebe de que a cada passada se afunda, que o menino pesa-lhe como o mundo. Teme pela sua vida, julga vacilar, mas transporta o rapaz até à outra margem, salvo e enxuto. “Pesaste-me tanto que eu julguei ter o peso do mundo nas minhas costas“, revela o gigante. “Não te surpreendas, Cristóvão, não tiveste apenas o peso do mundo nas tuas costas, mas o peso daquele que tomou sobre si todos os pecados do mundo, pois eu sou Cristo, teu rei”.

Cristóvão, prossegue Tournier, leva às costas algo de bom. Ele é um phorien para um εὐ. Ele transporta a alegria. Ele é euforia.

Il est donc un Euphore, e todavia ele tanto transporta como comporta, tanto serve como encerra. É aqui que o recurso ao texto original francês se revela mais útil, pois não há como igualar a poesia do contraste entre porter e emporter, entre servir e enserrer. Perante este confronto de palavras finalmente percebemos. Aquele que transporta a foria comporta também em si essa alegria. Aquele que se dedica a servir a alegria acaba por encerrá-la também, com todos os contornos e linhas da sua felicidade.

Justamente, esta ideia de alegria transportada e encerrada a partir de grande esforço, quasi penitência (faltou pouco para que o nobre Réprobo praticamente vacilasse e perecesse no rio sem nome) desapareceu por completo. Aqui termina a exposição de Tournier e se inicia a evolução da História.

Actualmente, a euforia não surge associada a uma provação ou qualquer dificuldade, antes aparecendo inequivocamente associada a uma sensação geral de bem estar leve e estonteante. A fronteira clássica entre o eufórico e o extasiado encontra-se enlameada, extinta, e isto já vem sucedendo desde há alguns séculos. O processo ter-se-á iniciado na noite dos tempos, algures na Idade Média, ou mesmo em tempos que a antecederam. Decisivo é o triunfo do Cristianismo no mundo ocidental e herdeiro de uma cultura helénica. Então, o homem deixa de ser o Homem da era de Adriano, o ser humano que Flaubert colocava depois da morte do paganismo e antes da era de Cristo. Cito a sua frase, que grande fascínio já exerceu sobre mim e outras almas superiores no passado. ‘Les dieux n’étant plus, et le Christ n’étant pas encore, il y a eu, de Cicéron à Marc Aurèle, un moment unique où l’homme seul a été.’

Pois bem, este Homem, esta ideia de um ser que existe em si e para si, morre com o Cristianismo ao mesmo tempo que se convola numa passividade perante uma divindade. Quando finalmente surgem os primeiros arautos do Calvinismo a evolução já se encontrava inteiramente consumada: o homem já tinha o seu destino traçado desde o momento do seu nascimento, e toda a alegria que alguma vez pudesse vir a transportar não seria ganha pelo seu esforço ou suor, mas antes porque assim se entendia o propósito divino.

Nem os tempos recentes, tão repletos de conhecimento, puseram cobro à confusão. Encontramos ainda a subversão patente em termos médicos. A euforia como um estado de emoções desmesurado ou desconcertado para com a realidade que o rodeia, uma elevação do ser a píncaros de alegria que usualmente não são normais.

Todos estes pensamentos soltos não terminam aqui. Sem dúvida, poderia explorar outras ideias que me ocorreram durante o tempo que tomei a me familiarizar com este tema. Talvez amanhã regresse a Tournier e à sua impressiva construção da euforia como o momento que precede a morte, num plano finito da existência (se o nascimento é a violência da inserção na vida e na mortalidade, a morte é o seu mais perfeito contrário; a euforia é o estado natural daquele que se distancia do seu momento de origem e se aproxima do final dos seus dias).

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One thought on “Percurso pela abstracção de uma etimologia: a euforia e o ser.

  1. […] Nada disto impede que eu admire a profissão e o labor de tradução: não é assim que todos começamos a ler o resto do mundo? Afinal de contas, o tradutor é mesmo um phorien, transportando um belo e doloroso Eu. Michel Tournier confere. […]

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