Leitura para a semana do armistício

A noção de que a memória previne a reincidência do erro e das irreflexões sempre foi fulcral nos contextos do pós-guerra e nunca tardou a ser assinalada até pelos primeiríssimos historiadores helénicos. Se há um tema comum em todas as magníficas paradas que, todos os anos a 11 de Novembro, ainda se fazem no Reino Unido e com especial fulgor em Londres, é um tema de honra e de memória. Prestar homenagem aos que lutaram pelo nosso mundo de hoje, e recordar-nos, não deixar o passado cair em profundo e letárgico esquecimento.

Para a minha geração, um perigo adicional. As duas Guerras Mundiais surgem demasiado longínquas, tanto mais que a minha pátria nem participou activamente na segunda. Como compreender as motivações do início do século, o horror de uma guerra subitamente prolongada, as cicatrizes irreparáveis de Versailles, a subida ao poder de um partido nacionalista, e depois, a segunda e terrível parte da guerra?

Ainda me recordo quando, durante o secundário, me pediram para realizar uma apresentação sobre a Primeira Guerra Mundial. E lá comecei eu a escrevinhar com base em datas, factos, intervenientes. Depois, tive a sorte de ver um documentário, uma secção do Século do Povo dedicada a este confronto. Não era um registo particularmente bem feito, mas nem a mais desleixada das realizações conseguiria mascarar a intensidade e a tragédia de alguns dos seus episódios. Em particular um, o de Verdun.

Ils ne passeront pas. Trezentos mil combatentes também não passaram.

Foi aqui que, pela primeira vez, me senti grato. Grato por todos os que vieram antes de mim, grato por viver em paz. Profundamente agradecido e mesmo assustado com a ideia de que, noventa anos antes, pessoas mais jovens do que eu tinham deixado tudo para ir morrer nos campos de batalha varridos por metralhadores e bombardeamentos.

Verdun, Somme, Gallipoli. Barbarossa, Dnieper, a ofensiva Brusilov ou a batalha de Kursk. Stalingrad!

Com isto chego ao tema a que aludi no título. Esbarrei com um curioso livro, The World at War: The Landmark Oral History from the Previously Unpublished Archives. Para os mais atentos, trata-se de um registo documental e de um conjunto de testemunhos dos participantes na monumental e célebre série de documentários com o mesmo nome, mas desta feita sobre a Segunda Grande Guerra. Há coisa de um ou dois anos, o Jornal Público prestou um admirável serviço ao disponibilizar a série completa ao longo de algumas semanas, um gesto tanto mais apreciado tendo em conta a então relativa raridade da publicação.

Narrada por Sir Laurence Olivier, The World at War é uma série documental complexa, minuciosa. Detalha as operações militares, e depois demora-se na vida das populações em guerra. Descreve os cenários de batalha, e de seguida aborda a desoladora atrocidade do vazio. Um cuidado fascinante é apontado aos primórdios do conflitos, os primeiros passos, a batalha diplomática, o Apaziguamento. O moderno espectador vibra perante o heroísmo da RAF, a batalha táctica do astuto Rommel contra Montgomery no deserto, a entrada das forças americanas no conflito, as matilhas de U-Boats, a resistência japonesa. Pouco depois, por vezes ao mesmo tempo, chega o horror e a repulsa. As imagens são vivas. Respeitosas, mas violentas. A brutalidade é inacreditável mesmo nesta época de banalidades.

Em suma, é um trabalho que gostaria de recomendar se conhecesse alguém que o apreciasse. A alguns, faria recordar. A outros, ensinaria. Conto agora com a leitura complementar deste livro, que desde logo se afirma interessante por ser um registo ipsis verbis de muitos testemunhos que me recordo ver na série. Conta igualmente com alguns materiais adicionais, de publicação inédita.

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